segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ícaro a tinta preta


Manda-me calar, porque eu falo demais. E quem tem por hábito fazê-lo costuma perder-se em novelos de ideias e, com as pontas soltas, acaba por desviar a atenção para os gestos toscos de quem tenta remediar o fio frágil com um nó atarantado. Perde-se o sumo que escorre pelo meio das palavras ditas, vai pingando nas reticências e fica derramado, sem remédio, o sentido no chão. A sintaxe foge por entre a semântica descuidada enquanto o discurso toma a forma de uma melodia sem mais valor do que o ritmo que contém e o interlocutor lá vai batendo com o pé no chão, sentindo apenas a sonoridade dos vocábulos e não já aquilo que serviam para dizer. Falar muito é nada. É conhecer o lado esquerdo do dicionário e nem uma letra além disso.
Diz-me para não escutar, porque ouvir dói e desgasta a singeleza dos sentidos. Farei orelhas moucas ao que me é dito e formarei uma opinião só minha. Não me importa não mais ouvir o som poderoso do mar revolto, o canto alegre do pássaro pela manhã, a voz cândida das tuas palavras, a nona sinfonia… Porque mesmo não escutando, tenho em mim o poder de reproduzir para dentro a melodia que me aprouver. O poder da imaginação é de tal forma demolidor que posso sentir em mim o soprar do vento num jardim de Osaka, o sussurro das mãos da avó quando cuidam das orquídeas lá fora, o grito medonho do céu zangado num estrondo de trovão.
Tapa-me os olhos, porque o mundo não é uma imagem assim tão bela. Abdicaria da visão até porque me basta a memória fotográfica dos rostos e dos lugares que me são queridos. Mesmo os que não voltarei a ver estão gravados cá dentro. E os lugares longínquos em que penso, sei-os porque os sei, e isso já me basta. Se fechar os olhos vejo o monte Fuji daqui, de tão longe, e sei bem como a neve o cobre som suavidade, tornando-o ainda mais belo. Posso até perder o Norte e mesmo assim sei como seguir para Oriente.
E se pedires que perca o sentido táctil, será como perder o olfactivo ou mesmo o gustativo, porque tudo isso está ao meu alcance dentro do meu mundo sem sentidos. Porque conheço tão bem o toque suave da seda, como o doce odor do teu pescoço, como o sabor aconchegante de um chá verde. Crio, mentalmente, uma bola de neve, e ainda assim lhe sinto o frio e a consistência gelada. Basta-me imaginar com saudade o aroma forte das acácias na Primavera para que me pareça que estou mesmo perto de uma que em nada se inibe de exalar o seu olor amarelo. Sei degustar de cabeça umas belas tiras de sashimi e saber-lhes o fresco que se me desfaz na boca, com o subtil picante do wasabi.
Mas a pena, Dédalo, a caneta alada, não ma tires. Não me cortes as asas, porque sou Ícaro ajuizado. Jamais voarei demasiado perto do Sol. Mas é com asas de tinta que, por vezes, tenho de abandonar Creta para me perder na escrita, bem mais sensata do que o discurso falado, com menos reticências e mais esclarecida, com menos espaços em branco passíveis de ser preenchidos por mal-entendidos, a grandiosa ponte para o meu mundo onde tudo é claro, colorido e autêntico, onde não há cruel rei Minos que nos prenda, onde encontro as respostas às minhas perguntas, onde sei que está a estrada dos tijolos amarelos e devagarinho, passo a passo nos meus sapatos de lantejoulas vermelhas, vou andando, tijolo em tijolo, numa busca lenta de mim mesma enquanto vou colhendo guloseimas das árvores rosadas que indicam o caminho. E mais do que encontrar o feiticeiro, quero aproveitar a viagem.

Finalmente um soneto


Na mão trouxe o pomo dourado
Apareceu, qual cisne, ela Leda.
Tanta luz deixou-a assim queda,
Que o julgou Prometeu alado.


Deixou ele cair o manto em seda.
O fogo amainou por um bocado.
Ela reconheceu o rosto rosado
No intervalo de uma labareda.


E quis ela por momentos
Num devaneio de gestos lentos
Num pesadelo em tons de preto


Perfumá-lo com unguentos,
Mas quando relembrou lamentos
Exorcizou-os num soneto.

domingo, 1 de novembro de 2009

Mármore

O frio do mármore absorve-me por completo.
Hoje não o quero sentir.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

nadas


Saí do bar a dançar com Diónisos e a notícia caiu em mim como uma bomba. Diónisos fugiu. Deixou-me atónita e incrédula, parada, como uma estátua, no meio da calçada velha, junto à Sé. Respirei fundo mas as lágrimas já caíam e na minha cabeça já passavam imagens à velocidade da luz, ecos de vozes que agora são de antes. As tardes passadas lá em casa, o sorriso tímido, o falar pausado, as noites de boémia. As recordações misturaram-se depois com conclusões, constatações, coisas que já faziam algum sentido, muitas dúvidas também, ninguém falava e porquê, soubemos de repente.
E agora? É lembrar aquela força inabalável e a vontade de viver plenamente até ao fim, apreciar a vida até ao último dia, saber lidar com os nadas e ainda assim sorrir. Lidar com nadas e sorrir é saber viver.

sábado, 10 de outubro de 2009

O primeiro de nós


Já toda a gente adivinhava que este ia ser o primeiro casamento do grupo. Era certo e há muito esperado. Mesmo assim não deixei de me comover no dia em que recebi o convite, no momento em que desenlacei a fita de cetim cor-de-rosa, senti o veludo branco na ponta dos dedos, e ao ler as letrinhas redondas apercebi-me de que o momento estava, finalmente, para chegar.
Depois da felicidade inicial, seguiu-se a azáfama há muito avisada: ver a lista de casamento, comprar um vestido, uns sapatos, uma malinha de cerimónia, ir escolher um fato com o namorado, decidir boleias e horários. Se tudo isto, de início, me pareceu complicado, quando pus o meu plano de caça à roupa pareceu ainda mais difícil: ter de encontrar um vestido apropriado e discreto, elegante mas descontraído, se é preto há que contrastar com outras cores, se encontro um casaco bonito os sapatos são imediatamente riscados da lista porque, conforme a lei de Murphy, não combinam. Também convém que a maquilhagem esteja perfeita: nem muito exagerada nem simples demais, adequada a uma cerimónia sem que descaracterize o meu estilo, não podem nascer borbulhas, nem herpes, nem arranhões. Passada, sem saber bem como, esta lufa-lufa, há que avisar o namorado acerca dos tons que vamos usar, precisamente para que o seu fato não destoe por completo, porque é o que diz o “grande livro das regras dos casamentos”. De tudo isto, a lista de casamento até parece a parte mais fácil e divertida de todo este processo: é só ir à loja, ver as várias hipóteses, ponderar e tomar a decisão final. Ufa!
À hora marcada, naquele domingo, vieram buscar-nos os amigos de sempre, todos janotas, cada um com o seu fato elegante, a gravata cuidadosamente escolhida. Olhei para nós. Tão bem postos. Que idade teríamos naquele momento? “Estamos crescidos, meus velhos”. Contudo, já no carro, a caminho da recepção em casa da noiva, a música alta, os risos e as confissões de sempre fizeram-me perceber que há coisas que nunca vão mudar em nós. O mesmo na recepção: sem jeito, os janotas não sabiam bem como agir nem o que dizer, ainda assim, entrámos em grande estilo, todos chiques, carregando a geleira da despedida de solteiro, que ficou (mal) escondida a um canto do jardim. O noivo veio receber-nos. Radiante, sem mostrar uma ponta de nervosismo, bem disposto como sempre e elegantemente vestido. Nunca o tinha visto elegantemente vestido. Pensei onde estariam as velhas calças de basquet, as sapatilhas e a t-shirt despreocupada. Depois de petiscarmos qualquer coisa desafiaram-me para ir ver a noiva. Subimos as escadas do jardim e chegámos no momento em que a avó da noiva lhe estava a pôr o véu. Foi de cair o queixo.
Seguimos para a cerimónia, na capela da Universidade. Nunca tinha estado tão bem vestida em frente à faculdade, pensei. À porta as piadas nervosas e o último cigarro de solteiro. Tentámos entrar de modo discreto e escolhemos um banquinho onde coubéssemos todos, mais para trás caso algo corresse mal. Claro que, ao fim de vinte minutos de missa e coro, tornou-se hilariante reparar no que cada um fazia para tentar espantar o tédio. Finalmente saímos e deram-me para a mão um saquinho com pétalas de rosa e arroz. Foi, para mim, mais do que solene vê-los sair de braço dado, sorridentes mais do que sempre, abraçá-los, desejar-lhes o melhor e não ter palavras para dizer quanto.
A caminho do copo d’água fizemos um desvio para repor os níveis de cafeína e, ao chegar à quinta, não foi agradável percebermos que tínhamos chegado antes do cortejo matrimonial. Gaffe! Uma vez sozinhos, espreitámos as instalações, conhecemos os empregados e descobrimos que estávamos na mesa “Dama e Vagabundo”, que acabou por se revelar a mais divertida da festa. Depois das fotografias e dos copos de champanhe e martini, entrámos no salão e fiquei boquiaberta com tudo, desde a estrutura da sala até aos guardanapos da mesa. Fico sempre atrapalhada numa mesa cheia de copos altos, mas não fui eu a responsável pelo derrame de uns quantos. Depois de um banquete à antiga, os noivos abriram o baile e o karaoke. Fartámo-nos de dançar e cantar, como nunca nos tinha imaginado. Pouco depois descobrimos o bar e umas mesinhas ao ar livre e tenho ideia de termos ficado por ali umas valentes horas a conversar. De vez em quando o noivo vinha sentar-se connosco e então era só recordar e rir a bandeiras despregadas.
Como bons convivas, e como tínhamos sido os primeiros a chegar, também foi de “bom tom” sermos os últimos a sair. Cansados e felizes despedimo-nos dos amigos recém-casados e rumámos cuidadosamente de volta, entre cantorias e gargalhadas. Afinal, havemos sempre de ser (mais ou menos) os mesmos.

sábado, 26 de setembro de 2009


Ontem trajei pela última vez.
Primeiro fui procurar a velha capa que se encolhia, com medo das traças, no fundo do armário. Olhei-a de um lado e do outro, como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Revi os símbolos um a um e recordei a razão pela qual cada um deles lá estava, cuidadosamente cosido no sítio certo. Olhei para os rasgos à direita e sabia identificar a que amigo pertencia cada tirinha, em que circunstâncias pedi que mo fizesse e foi aí que me desolei ao aperceber-me de que o lado esquerdo da capa estava intacto, nem um rasgo. Depois, com cuidado, tirei a cruzeta que segurava o traje. E lá estava ele, impecável. Pareceu-me, nesse dia, o mais belo fato do mundo! Devagarinho fui “descascando” a cruzeta: primeiro a gravata, depois o casaco, o colete, a camisa e a saia. Dispus as peças sobre a cama larga da minha mãe e sorri para elas, companheiras de uma viagem que estava a chegar ao fim. Foi a primeira vez que usei aqueles collants pretos, de senhora viúva, sem dar conta das picadinhas do nylon e foi também a primeira vez que ninguém me ouviu queixar dos sapatos de salto grosso.
Era já fim da tarde e estava calor. Peguei na capa sem jeito, a fazenda grossa pesava-me nas mãos. Encontrámo-nos junto a Safo, que todos os dias nos piscava o olho quando passávamos junto a ela, na pressa de uma aula. Foram chegando os amigos de sempre e a família próxima enquanto nós, em amena conversa e sem o sabermos, nos íamos despedindo do que foi. Ao cair da noite as tesouras começaram a brilhar por entre as sombras. As mães aproximaram-se de nós e foi solene o momento em que nos cortaram as gravatas, com uma ânsia de nos libertar da meninice, com o sonho de nos ver subitamente transformadas em mulheres, com aquele sorriso de dever cumprido, com os olhos brilhantes de mãe. A partir daí foi ver-nos a nós ansiosas por rasgar o passado num brinde ao futuro, e o barulho dos rasgões no tecido sabiam a liberdade, e quem nos ouvia sentia, nos gritos histéricos e nas gargalhadas fortes, a tristeza de uma despedida e a vontade de viver novos tempos, outras histórias. Mas mais fortes que as nossas gargalhadas eram as das famílias, que se divertiram tanto ou mais que nós, que sentiram o nosso sentir, que viveram esta experiência como se fosse deles também. E foi. Afinal foram eles os maiores fãs do nosso sucesso, o ombro de carpir as mágoas, a força maior que nos fazia acreditar que era possível vencer esta etapa.
Vencemos juntas. E pensam os demais: “Vencer é um verbo demasiado forte.” Não, não é. Mais uma vez reitero a minha opinião: ser estudante de Coimbra não é (só) ser um bêbado das tascas. Levantávamo-nos cedo para ir para as aulas, sempre com um sorriso na cara, arrombávamos os orçamentos lá de casa a comprar pilhas de livros que serviam, depois, para queimarmos as pestanas até às tantas da manhã a lê-los, quando a noite não era passada em branco a fazer algum trabalho. Passámos por cima de tudo isso, sobrevivemos às directas, aos nervos dos exames, ao pânico de uma apresentação oral. Nada teria sido possível sem aqueles que, além de colegas, também são amigos, o que não é fácil de encontrar por aí nos dias que correm. Eu nunca sobreviveria a uma maratona destas, amigos, sem as vossas piadas matinais, sem as maluqueiras habituais, sem os dedos nos olhos e as simulações de vómito, sem os comentários jocosos que tecíamos sobre tudo e todos (espírito crítico), sem as noitadas juntos e, sobretudo, nada disto teria sido possível sem os vossos sorrisos, as vossas palavras de incentivo, a ajuda incondicional e a confiança para chamar à razão quem a estivesse a perder.
Nessa noite jantámos juntos e juntos seguimos para o bar de sempre, como um regresso ao ventre materno, para uma última noite assim. E digo assim porque não haverá noite como aquela, outras virão e serão igualmente ou ainda mais especiais, mas nunca como aquela. Quatro raparigas rasgadas ao balcão do bar, quatro copos de um licor azul, para sempre a cor da nossa viagem. Muitos brindes se seguiram. A nós, aos que gostam de nós, ao sucesso, à felicidade, ao futuro. Já nas graças de Diónisos, falámos, recordámos muito, as aulas, os lentes, o percurso de um e de outro, rimo-nos muito, dançámos descalças, fizemos as maluqueiras de sempre. E a noite foi animada, acabou animada.
Chegada a casa, tirei os trapos, deitei-me na cama e Orfeu abraçou-me até o sol estar a pique. No dia seguinte, guardei todo e qualquer trapinho, cuidadosamente, dentro de um saco. E não tive mágoa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

sakura


Uma brisa inesperada sacudiu um ramo da velha cerejeira sob a qual eu saboreava os moles raios de sol das primeiras horas da manhã. Uma flor caiu de mansinho no meu regaço e fitava-me sorrateiramente do colo do meu vestido de linho. Alguém a pintou com mil tons de rosa, uma pintinha preta aqui e ali, e brilhava muito sob o sol que ainda tinha vergonha de aparecer.
Parece que foi a primeira vez que eu atentei numa flor. Escutei-lhe nos contornos e na forma o desejo de ter asas, li-lhe nas cores a vontade de voar, os seus apóstrofos verbalizavam palavras que não existem. Olhei-a de todos os lados, senti-lhe a maciez com a ponta dos dedos e peguei-lhe como quem pega numa chávena da melhor porcelana. A sua pequenez era grandeza na palma da minha mão.
Soprei a plenos pulmões e a flor abriu as asas e fugiu para além do que eu pude ver. Foi com o vento e levou-me para longe.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ensinaram-me a dizer saudade

Tenho tido olhos de luto. Aquele olhar transparente através do qual se poderia ver uma alma, não estivesse ela vazia. Quem repara nos meus olhos com atenção não consegue parar de indagar-se e acaba por soltar a questão do costume: “Acabaste a licenciatura e estás de férias. Porque razão hás-de estar assim?”. Com alguma paciência lá respondo algo, é como uma tentativa de explicar aos outros aquilo que nunca hão-de compreender, é mostrar-lhes o Colosso de Rodes e verem um galo de Barcelos… Quando digo o que sinto, que foi o melhor ano lectivo de sempre em tantos anos de faculdade, que atingi as minhas metas e que conheci pessoas com quem criei laços muito fortes, tudo parece mínimo, a enormidade do que sinto reduz-se à pequenez das palavras ditas e perdidas no ar. Nem eu própria, que sei o que sinto e porquê, sei organizar as ideias de modo a que os outros me possam compreender mas, essencialmente, de modo a que eu possa compreender-me a mim mesma. Sempre ouvi dizer que, se um assunto é complexo e delicado, difícil de explicar, se deve começar pelo início. Volto atrás um ano na minha cabeça. Fecho os olhos e viajo no passado.
Era uma vez… Não é assim que as histórias bonitas devem começar? Então prossigamos. Era uma vez a Maria e a Francesca, duas raparigas sardas, de Sassari, primas entre si, diferentes como a noite do dia. Foi um amigo que mas apresentou num encontro no mítico Penedo da Saudade. Não pude deixar de olhar para a Maria em primeiro lugar. Os seus olhos grandes, os lábios carnudos, o cabelo perfeitamente negro, o sorriso rasgado e sincero, prenderam imediatamente a minha atenção. A Francesca tinha um rosto sereno, os olhos amendoados e o cabelo escorrido que lhe caía nos ombros.
Rapidamente se criou uma empatia e começaram as visitas a casa delas, os jantares, as noitadas de conversa útil, as palhaçadas universais. E fomos conhecendo mais e mais gente. Em casa da Maria e da Francesca moravam ainda a Arianna e duas espanholas, a Marta e a Diana. Pouco mais tarde apareceu o Pier Luigi e o Alessandro. Aos meus olhos, eles pareciam viver o erasmus como pai e filho, respectivamente, numa atmosfera de carinho e protecção. O Gigi tinha tudo aquilo que eu imaginava num italiano: bigodinho, camisas e pólos, pulseiras e colares, tinha uma vespa e via o Padrinho, pelo menos, duas vezes por semana. É de Lecce, ultra da equipa, um ‘bon vivant’, trabalha num bar paradisíaco numa praia paradisíaca. Lembro-me de como gostava de o ouvir falar, da voz colocada, das brincadeiras que fazia como locutor de rádio. E o Alessandro, que alma pura, era o nosso Peter Pan, não que não quisesse crescer, mas alguém que eu nunca vou imaginar crescido. Estava sempre pronto para mais um copo, mais sorriso, uma brincadeira, um jogo de setas. A Maurizia, uma miúda divertidíssima, com um modo de falar muito seu, o cabelo curto e laranja, sempre sempre sorridente. Já no segundo semestre, vieram o Marco e a Martina. Ele baixinho, brincalhão, olhos malandros, alinhava sempre no que quer que fosse, fazia as delícias de todos com as suas imitações perfeitas. A Martina era mais sossegada, alta e de cabelo negro que lhe batia nos ombros. Depois vieram o Maurino, o Mitch, a Aurélia, o Stefano e muitos amigos de amigos de amigos.
À tarde gostávamos de apanhar sol, tal foi o frio deste Inverno, e falávamos sobre tudos e nadas. As noites passavam-se com jantaradas e conversas amenas que muitas vezes acabavam em conversas bastante ébrias já na Sé Velha. Aprendi a fazer pasta a sério, coisas que nunca imaginei gostar, fiquei estupefacta com os dotes culinários do Gigi, delirávamos com licor de mirto, exclusivo da Sardenha, falávamos sobre tudo e mais alguma coisa, aprendemos italiano e eles português. Festejámos aniversários, exames que correram bem, notas de exames, bebíamos para animar em ocasiões de exames que tinham corrido mal. Não houve ano em que tivesse saído tantas vezes à noite e, ao mesmo tempo, também não me lembro de ter sido tão aplicada nos estudos como fui.
Queimadas as noites, e quase sem darmos conta, era chegada a hora das despedidas. Durante um mês despedi-me da boa vida que tinha levado e das grandes amizades que ficam cá dentro. A primeira “festa de despedida”, expressão que me começou a parecer um pouco ambígua, teve lugar no denominado ‘Catstelo’, uma casa enorme que, reconstruída, seria um palácio de sonho, mas na verdade era um prédio gigante e degradado onde morava cerca de meia centena de erasmus e duas senhoras portuguesas. A vida para elas não devia ser fácil, não sendo um castelo de conto de fadas, era um sítio mágico onde havia sempre festa, o que implicava sempre pasta, vinho e cerveja. A festa foi divertidíssima, nunca tinha estado numa casa tão cheia de gente, moradores e convidados eram mais de uma centena e eu era a estrangeira ali, o que nunca me deixou constrangida. Tínhamos uma relação especial, um grupo pequeno e sólido, portugueses e italianos em perfeita sintonia, e tudo se desmoronou com a partida do Gigi, deixando a cidade em lágrimas. Tudo ficou diferente a partir desse dia. A iminência das partidas apertava os nossos peitos e molhava-nos os olhos de saudade antecipada. Todas as despedidas me marcaram, cada uma de um modo diferente, ia perdendo pedaços de um pouco de vida vivida em conjunto.
Eu e a Maria não tivemos uma despedida. Fomo-nos despedindo. À medida que o tiquetaque aumentava o seu som, abraçávamo-nos e aprendíamos amizade. Quando se tornou ensurdecedor, o tiquetaque fez-nos chorar e limpávamos as lágrimas uma da outra como irmãs que tentam em vão limpar uma ferida aberta. Então ela partiu, a minha amiga, a minha irmã, companheira de um período feliz. Disse-lhe tanto e não lhe disse tudo. Na última noite corremos os bares habituais como se fosse um dia qualquer, mas os olhos da Maria não mentem e ela estava descorçoada, sem alma. No dia seguinte, na estação, faltavam-me as lágrimas nem sei porquê. Só quando a camioneta partiu se quebrou o pranto.
Continuo sem saber se foi a sorte, o destino ou somente a compatibilidade de nacionalidades que nos aproximou desta maneira. Sei apenas, e até sei muito e bem, que eles foram tão ou mais felizes aqui quanto eu fui, que os laços que criámos nunca se quebrarão, que parte de n+os foi com eles e parte deles ficou por aqui. Em cada badalada da cabra ouço a voz da Maria, o famoso ‘hiiiiii’ do Ale, os passos mansinhos da Fra, as piadas do Marco, o Gigi a repetir “Maria, prendi tu figlio”, os nossos risos no eco da madrugada. E assim, eu que sou nascida e criada em Coimbra, só este ano aprendi o verdadeiro significado de saudade, de vestir a capa negra e folhear memórias, do que escreveram os antigos nas placas do Penedo da Saudade, de ouvir a cabra e tremer a cada badalada. («um amigo a partir em cada letra»). Gosto de ter este olhar perdido nos nossos sorrisos de ontem, pousado nos nossos abraços, sossegado pelas promessas de visitas próximas.

sábado, 1 de agosto de 2009

«Não sei quantas almas tenho»


«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.»

Fernando Pessoa

terça-feira, 30 de junho de 2009

Desassossegada como nunca



Penso, desassossego-me, choro,

questiono-me, respondo-me, sossego.

As borboletas são assim,

tocam-nos revelando um esplendor secreto

e logo partem num bater de asas.

Que levem um pouco de mim

e guardem consigo o que levarem,

como eu vou guardar

no fundo do meus olhos

o êxtase de cor

e o som do seu voo leve.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Aniversário


Faço anos. Acordo e abro a janela para ver o sol e sentir o cheiro das rosas do jardim. Corro para o espelho e desolo-me ao ver que já não sou a menina do vestido amarelo, com sapatinhos de verniz. Desassossegada, corro para a varanda e a vó velha não está sentada ao sol. Onde estará ela? Angustiada, procuro o avô pelo jardim, mas não o encontro. Que é feito de nós? As festas com a família toda, a mesa cheia de doces da avó, as notas que me punham nos bolsos à socapa, o pátio que gritava vozes de crianças, o beijo apertado do avô na minha testa, o bolo de aniversário com pintarolas e fios de ovos, receber a primeira nintendo, assistir a uma sessão de Dartacão na televisão velhinha. Para onde foi isso se era tudo tão meu?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

«Aniversário»

«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
»


Álvaro de Campos, 15-10-1929

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Caminhos


Não me parece totalmente correcto afirmar que se escolhem amigos. Certo é que não são fatais como a família, que não se escolhe, tem-se, mas parece-me que são os amigos que nos vão escolhendo ao longo da vida e é ela, a vida, que nos vai dando a oportunidade de apanhar amigos como quem apanha flores do campo. Fitam-se as flores, demoradamente, e vão-se notando defeitos naquela pétala amarelecida, pequenas falhas neste caule… Aqui se escolhem as flores mais perfeitas e se vão deixando cair as outras pelo caminho. Tudo está, afinal, relacionado com caminhos. São os trilhos que se escolhem e os momentos pausados que determinamos para cheirar esta ou aquela flor: isso sim é a única escolha passível. Direita ou esquerda, subir ou descer, preto ou branco, parar ou seguir. E seguimos, seguimos sempre. Optamos a todo o momento por isto ou aquilo, desta ou de outra maneira, de ânimo leve ou de alma carregada. Seguimos. Sem nunca deixar de pensar nas escolhas, de duvidar das azinhagas subidas, de desdenhar das flores cheiradas, de lembrar outros caminhos que eram possíveis e que, por uma razão ou outra, por causa de uma pedra no caminho, decidimos ignorar e tomar outros rumos, questionados a toda a hora.

Becos, azinhagas, ruelas, estradas, avenidas. Passamos por bastantes e diversas na nossa jornada e muitas vezes, por culpa do tiquetaque acelerado que paira sobre as nossas cabeças, esquecemo-nos de olhar as janelas e os topos dos edifícios, de admirar os jardins, as matas, os pinhais, a areia das praias, de parar para escutar, por um segundo, a cidade em silêncio, de pasmar perante um céu negro, negro e estrelado e ficar horas a contar as estrelas e a descobrir constelações em nós mesmos. Vias cruzadas, certas ou erradas, desfrutemos delas, cheiremos, paremos para escutar. Há sempre um caminho de volta.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

«Vencidos da Vida»


Hoje é corriqueiro passarmos na rua e vermos vários cartazes alusivos a cursos profissionais, muitos deles agora nas escolas públicas, que permitem ao aluno optar por uma formação especializada na área que pretende. Ainda ontem passei por um cartaz que dizia qualquer coisa do tipo “há muitas profissões dentro da tua escola” e que me fez imediatamente relembrar os meus tempos de miúda. Na altura, um miúdo chegava ao nono ano de escolaridade e podia usufruir dos denominados “testes psicotécnicos”, que nos davam respostas bastante vagas acerca da nossa vocação futura. No meu caso, por exemplo, lembro-me de que a grande conclusão de todos aqueles testes revelava a minha capacidade para lidar com pessoas. Mas que raio é isso de “lidar com pessoas”? Eu lido com pessoas todos os dias. Se o não fizesse seria muito mau sinal. Não? E em termos de profissões que impliquem “lidar com pessoas”, não consigo lembrar-me de muitas em que não seja preciso fazê-lo. Nesse tempo interpretei essa resposta como um indicador de que a minha escolha estava certa: queria seguir humanidades, estudar história e literatura, aprender o fascínio das línguas e culturas. E assim o fiz.

Não quero com isto dizer que não houvesse já qualquer tipo de ensino mais específico e direccionado para determinada área. Não era apenas tão divulgado e, não sei porque carga de água, era sinónimo de “incapacidade para fazer o que deveria ser feito”. Havia uma voz pesada que nos indicava o caminho a seguir: escolher uma determinada área no ensino secundário, que se reduzia a Ciências, Artes, Economia e Humanidades, e seguir, posteriormente para a universidade. Hoje volto a pensar naquele cartaz e naquilo que nos era dito. Muitos de nós, já com canudos na mão ou perto disso, olhamos para aqueles de quem escarnecíamos e vemo-nos perdidos, sem trabalho porque a nossa formação, embora custosa, não é aquela que é precisa neste momento. Somos a geração desiludida, enganada pela ideia de que um canudo nos daria segurança e estabilidade para começar uma “vida de adulto” e somos, afinal, a segunda geração de “Vencidos da Vida”.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Fulaninho de Cartago

Mais uma vez o Thíasos surpreendeu pela positiva na abertura do XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, com a magnífica peça O Fulaninho de Cartago, de Plauto, apresentada com a nova tradução, sempre mais coloquial e acessível, do professor José Luís Brandão, também seu encenador.

Foi desta que convenci um velho amigo a juntar-se a nós para ver a peça. Nessa noite, o espaço em frente ao Teatro Paulo Quintela, que me pareceu sempre bastante amplo, estava coberto por um mar de gente que queria mesmo ver Plauto. Não eram só os grandes professores da área de clássicas, mas gente de todas as áreas e de todas as idades. Depois do tempo de espera para entrar, nada de especial embora anormal para o costume, a desilusão de já não haver um daqueles livrinhos com os trechos da peça… Apesar de termos conseguido chegar a horas, sentámo-nos nas filas de trás. E fez-se silêncio.

No palco apareceu o caríssimo professor Delfim Leão, fazendo alguns agradecimentos e fornecendo ao público as linhas gerais da peça e do seu contexto histórico. Aqueles gestos, o tom de voz, trouxeram-me imediatamente à memória as saudosas manhãs de aulas de Cultura Clássica. Quanto aprendemos com ele! Descontraído, correu para fechar as cortinas da entrada grande sala e desapareceu por entre as cortinas do palco.

As luzes acendem-se e destacam-se as entradas de um lupanar e de uma casa das redondezas. Do lupanar sai uma jovem que, servindo de coro, nos canta as aventuras de Agorásteles, o rapaz que havia sido raptado de Creta juntamente com as suas primas. Fora adoptado por um velho misógino de Cálidon, na Etólia, do qual herdou todos os bens. Encontramo-lo agora apaixonado por Adelfásio, futura meretriz no lupanar de Lico, o Alcoviteiro a quem Agorástocles pretende dar uma lição. É o dia das afrodísias, a festa de Vénus. Lico, Carlos Jesus, entra em cena e encontra Antaménides, o soldado romano fanfarrão, a personagem-tipo que adora contar as suas façanhas fantasiadas, aqui interpretado por Delfim Leão, que nos brinda com uma sessão tão cómica e com tamanha convicção ao contar como matou os homens-voadores, que o público lhe responde com sentidas gargalhadas.

Mais tarde, Agorástocles alia-se ao seu escravo, Milfião, e ao seu caseiro, Colibisco, juntando um grupo de testemunhas para enganar o alcoviteiro. Entretanto, para surpresa de todos, surge Hanão, Joasé Luís Brandão, um cartaginês que é, afinal, o tio de Agorástocles e que descobre que as suas filhas são Anterástilis e Adelfásio. Estas são, finalmente, salvas e voltam para a companhia do pai. De destacar, também, o papel de José Luís Brandão e o magnífico sotaque que usou para fazer de cartaginês. Agorástocles fica com a sua apaixonada prima Adelfásio e Lico fica entregue a Antaménides.

Mais um momento bem passado. O XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico dura até Julho e aqui fica o programa: http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/teatro/11festival

sábado, 2 de maio de 2009

Era vital, Moreira

Não se fala de outra coisa senão da grande inquietação que aconteceu no 1º de Maio, em Lisboa, com o senhor Vital Moreira, distinto professor que agora apenas conheço por passar várias vezes à porta da minha faculdade. Pelo que vi no telejornal e pelo pouco que consegui ler na Internet, Vital Moreira foi apupado e mesmo agredido durante a marcha comemorativa do Dia do Trabalhador. É realmente vergonhoso terem insultado desta forma o candidato às europeias pelo Partido Socialista. Já algo de parecido se teria passado com Mário Soares na Marinha Grande, tal como Vital Moreira fez questão de recordar. E prontificou-se, também, a acusar apoiantes do Partido Comunista Português de tal acontecimento. Tem lógica que, tendo o senhor abandonado a militância deste partido há vinte anos atrás, haja quem ainda o considere um “traidor”, como lhe chamaram.

Pausa para pensar.

Imaginando que o professor Vital Moreira nunca tenha tido qualquer tipo de relação com outro partido senão o que agora representa, será que iria ser bem recebido pelos manifestantes da classe trabalhadora, sendo ele representante do partido que, por coincidência, é aquele que governa estes mesmos trabalhadores e contra o qual eles se insurgem? Não me parece. Curioso é tentar recordar-me de uma outra marcha do 1º de Maio em que ele tivesse estado presente desde que tenho consciência do que isso representa. Mais curioso ainda é recordar-me de que, há pouco mais de vinte anos atrás, quando eu o conheci, ele insistia sempre com a minha vó velha, na altura das eleições, para votar bem, o que na altura para ele significava “fazer uma cruzinha” onde dissesse PCP. Não quero com isto dizer que as pessoas não possam mudar de opinião com toda a legitimidade, não sendo obrigadas, como ele próprio disse, a militar num partido cujos ideais já não se coadunavam com os dele. Contudo, aparecer numa manifestação da CGTP um membro representante do partido pelo qual o povo já perdeu toda a credibilidade parece uma atitude um tanto ou quanto provocatória. Felizmente para ele que ainda não chegou cá a moda de atirar sapatos, até porque o português é suficientemente esperto ao ponto de pensar no dinheiro que iria gastar num novo par de sapatos. Pensando, por outro lado, na máxima que diz que até a má publicidade é publicidade, até acabou por ser porreiro, não te parece, pá? Vê lá, não façam agora de ti um mártir.

É a revolta do povo. Era vital, Moreira…

sexta-feira, 1 de maio de 2009

sorrisos, lágrimas e capas negras


Viver Coimbra é quase como escrever um poema, lentamente, ao ritmo das águas calmas do Mondego. Chegado Maio, parecem revoltas as águas do rio e os estudantes-morcego saem à noite para ver a Serenata Monumental, a abertura solene das grandes festividades estudantis e, acima de tudo, um momento repetido anualmente que sabe sempre a alguma coisa de novo e especial, como um doce-amargo que nos fica na boca.

Ser estudante de Coimbra não se define irredutivelmente como um dia o fez o comentador-por-excelência, Miguel SousaTavares. Disse qualquer coisa parecida com o estudante de Coimbra ser um mero bêbado que se interessa somente pelas festas “de arromba” que por aqui se fazem, pondo de parte o estudo. Terá tido o senhor MST o privilégio de estudar em Coimbra? Aposto que se terá esquecido de que, durante o semestre, passamos o tempo nos bancos desconfortáveis da faculdade, “queimamos as pestanas” sob a luz fosca dos candeeiros da Biblioteca Geral, carregamos as pastas negras atulhadas de apontamentos importantíssimos, derretemos dinheiro em fotocópias e em canetas fluorescentes que deslizam sobre palavras-chave, chegamos a casa cansados e preparamos as aulas do dia seguinte para tentar cair nas boas graças do professor. E ninguém é santo! Pelo menos que eu conheça… Fazemos gazeta, sim senhor. Às vezes apetece-nos ficar na cama porque abusámos na noite anterior, outras vezes apenas porque precisamos de estudar um pouco mais para outra coisa qualquer. Somos molengões e preguiçosos, adormecemos nas aulas e fazemos cábulas, quando não tiramos apontamentos somos uns cravas, estamos sempre prontos para convívios e mais um copo que venha. Odiamos a “cabra” e, no entanto, não conseguimos tirar os olhos dela, sempre lenta durante as aulas, tão veloz em dias de festa! Enquanto Maio vai chegando nos calendários, arejam-se capas, limpam-se os sapatos, compram-se cartolas e bengalas, os caloiros anseiam por vestir o traje pela primeira vez e é na serenata que desabrocham, quais tulipas negras.

Este ano tive o privilégio de assistir à Serenata Monumental de uma localização privilegiada. Eu, que sou pequenina, vi tudo de cima e os estudantes pareciam um amontoado de minúsculas pintas pretas que iam formando um manto negro que cobria toda a Sé Velha. Olhava aquele mar de gente com uma vontade enorme de saltar pela janela como se pudesse sobrevoá-los. Pela casa fazia-se sangria, dispunham-se as entradas para o jantar, punha-se música, bebia-se vodka ucraniana, houve quem fosse fazer a barba… Comeu-se muito, bebeu-se mais ainda. À meia-noite em ponto estávamos à janela para ver traçar as capas e ouvir o choro da guitarra. Percebi as tuas lágrimas quando te enrolaste na tua capa e deixei-me estar quieta a ouvir a balada da despedida, saboreando aquele momento agri-doce que dá vontade de guardar para sempre. E mais do que as nossas tolices, mais do que a cerveja e o vinho, são os vossos sorrisos que aquecem, as palavras meigas embargadas pelo álcool e pela comoção, são as capas negras que esvoaçam e se rasgam em sinal de amizade, são os abraços trocados e os brindes a futuros auspiciosos que fazem tudo isto valer a pena. Noites que recordaremos quando formos muito velhinhos, teremos saudade, cobriremos o nosso corpo vergado com a velha capa negra pensando em como deveríamos ter abusado um pouquinho mais.

«A ponte sobre o i»

«Coimbra é uma palavra que se escreve
com amigos a partir em cada letra.
Diz-se Coimbra e é o Largo da Portagem
a ponte sobre o i as claras sílabas
do Mondego correndo e o outro lado
da metáfora onde fica Santa Clara.

Diz-se Coimbra e é o Arco de Almedina
sobe-se a estrofe e sabe a mouraria
há uma guitarra abstracta e pedra a pedra
mais que cidade Coimbra é um teorema.

Quando se chega ao Largo da Sé Velha
começa devagar a ser poema. »


Manuel Alegre
in Coimbra Nunca Vista

sábado, 25 de abril de 2009

O que diz um cravo


Não conheço palavras melhores nem mais claras que as que Ary dos Santos nos deixou sobre a Revolução dos Cravos. É certo que o poema é extenso e, à primeira vista, poderá parecer enfadonho, mas não há nada de mais verdadeiro e belo e sentido. Como é bom ouvi-lo recitar, nas gravações que ficaram, com a sua voz inflamada de “poeta nunca castrado”.

«Sabes lá o que isso foi!», dizem-me novos e velhos, por acharem que quem não viveu aquele tempo nunca poderá sequer sentir a breve emoção de pôr um cravo na lapela. Há trinta e cinco anos atrás ainda eu não era pensada. Talvez tenha sido apenas um augúrio de uma avó velha. Curvo-me perante a evidência de não conhecer com a mesma certeza o sabor que tem a liberdade, sei que o que os livros da escola nos dizem sobre o assunto não basta para estremecer ao ouvir o Grândola trauteado, admito a ignorância de um sentir tão forte. Mas os cravos que seguramos têm o mesmo odor e a mesma vermelhidão dos de 74, seguramo-los pela mesma razão de um não querer nunca deixar esquecer as portas que se abriram, apertamos nas mãos o caule das flores rubras e robustas com a mesma força e vontade com que os capitães e soldados apertavam as suas espingardas.

Aprendi mais do que os livros da escola nos quiseram ensinar. Surripiava um livro do meu pai que falava sobre os tipos de tortura aplicados pela polícia política e lia-o com uma avidez curiosa e amedrontada. Certo dia, o falecido senhor José Neto, durante umas férias de verão, mostrou-nos o Forte de Peniche onde tinha estado preso e explicou-me, com o mesmo rigor com que mediu a curiosidade dos meus olhos, todas as atrocidades por que tinha passado ali dentro, nos vários compartimentos frios onde batia a maresia que os fazia sonhar com liberdade. Teria eu os meus dez anos. Foi pouco mais tarde que a avó conseguiu recuperar uma jóia de família, talvez a maior riqueza que possuímos, há muito perdida em casa de quem não lhe soube dar o devido valor: um livrinho comprido e estreito, amarelecido pelo tempo, com uma capa tosca feita com um pedaço da farda do meu bisavô Aníbal, preso político no Forte da Graça, em Elvas. Ainda olho com espanto a capa do precioso livrinho de poemas e pergunto-me como se conserva a tinta que ainda diz baixinho «23 de Maio de 1922/ Este livro pertence a Aníbal da Silva/ morador no logar do Chão do Bispo/Coimbra/» e mais baixinho ainda, sussurra: «chegada ao Forte da Graça em 23 de Setembro de 1921/ saída em 11 de Julho de 1922/ contém lindas cantigas/cansões/ motes/ etc.». Nunca o conheci e, no entanto, todos os dias as páginas azul-amarelecido me vão ensinando tanto, como se as palavras que escreveu com cuidado e a tinta com que as escreveu, que teima em não desaparecer, me fossem embalando enquanto me contam a sua história. Ler os motes que glosava como se fosse poeta experiente, «Sou homem não sou malvado/ Para o crime cometer/ Julgando que ia morrer/ Debaixo do chão izulado», são um quase sentir com ele a dor de estar no cárcere. E antes das belas cantigas, explica em mote e glosa, a sua chegada ao Forte, que ele dizia ser «sepultura de homens vivos»:

«Mote
Maldito forte da graça
Hó urrôzo pavilhão
Por galantaria matas
Homens debaixo do chão


Quando ao forte cheguei
Avistei as galarias
Qual foi a minha alegria
Eu não sei o que pensei
Eu então imaginei
A ser filho da desgraça
Tudo quanto é mau se cá passa
O enfeliz militar
Sempre sempre a trabalhar
Maldito forte da graça


O cabo que está de dia
Logo de mim se aproximou
A escolta me aprezentou
Os artigos que eu trazia
Levaram-me à secretaria
E depois à arrecadação
Chaparam-me como um ladrão
Como se fosse um assacino
Para cumprir cruel destino
No orrôzo pavilhão


Assim que tocou a formar
Meteram-me um barril na mão
Qual foi a minha imaginação
Ao ter que água acartar
Uns cachótes bão despejar
No meio de duas cascatas
Outros bão despejar as latas
No orrôzo pavilhão
Por galantaria matas
Homens debaixo do chão


Esperando o dia e hora
De alcansar liberdade
Sofrendo com croeldade
Até sair daqui para fora
Já por mim ninguém chora
Pela amizade do coração
Por estar lonje do meu torrão
Sem me poder auciliar
E por ber aqui matar
Homens debaixo do chão»


[Nota: Todos os vocábulos do texto foram transcritos do original.]

E é por saber dele e do soldado e do capitão, e dos que como ele eram homens que sofriam na prisão, que lutavam nas colónias sem saber porque razão, que hoje ponho um cravo ao peito e sei que comemoro a liberdade. Pela a consciência que fui adquirindo, pelos valores de família que me foram transmitidos, para nunca deixar tornar memória vaga aquilo que me permite hoje, mesmo sendo mulher, estar sentada em frente ao computador, e ter um computador (!), escrever sobre política, religião, revolução, amor… aquilo que me apetecer. Posso sair à rua na noite de 24 de Abril, como saíram os corajosos semeadores de cravos, e cantar bem de dentro “o Grândola” com mais de mil vozes comigo, enquanto arde o fascismo-boneco-de-palha, de cartola e casaco negro, mais custosamente a cada ano que passa. Grito com todos e a plenos pulmões «25 de Abril sempre» porque sei que as portas que Abril abriu estão a ser forçadas por quem quer tirar de novo ao povo “a paz/ o pão/ habitação/ saúde/ educação” que já eram nossas, e grito ainda mais alto com a mesma certeza com que sonhava com a liberdade o bisavô: «Somos muitos, muitos mil, para continuar Abril»! Porque a voz que grita o poder de um povo não deixará que roubem de novo aquilo por que tanto lutaram os nossos amigos, nossos avós, nossos pais. O poder «volta à barriga da mãe/volta à barriga da terra/que em boa hora o pariu» e o povo continua a sair à rua e a mostrar a revolta num cravo rubro.

«As portas que Abril abriu»



«Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração.
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.

Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação

uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.

Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.

Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.

Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.

Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
– pode nascer um país
do ventre duma chaimite.

Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
– é força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados «páras»
que não queriam o degredo
dum povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.

Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.

Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma ração
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.

Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.

Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril f
ez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.

Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.

Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.

Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.

Mas eram olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.

E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.

E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.

A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que se desdobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.

Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.

E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideais
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.

Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio fazia
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.

Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.

E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.

Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.

Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.

Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.

Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.

Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
— cumpriu-se a revolução.

Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os generais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.

Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.

E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.

Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.

E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
aprenderam Portugal.

Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opõe àqueles que o firam
consciência nacional.

Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.

Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.

Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.

Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.

Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
– Não havia estado novo
nos poemas de Camões!

Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.

Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram

das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.

Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.

E em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
dum país que vai nascer.

Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser

pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.

No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!

É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.

Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.

De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que a história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua própria grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viessem ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.

Na frente de todos nós
povo soberano e total
que ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.

Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisas em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!»


José Carlos Ary dos Santos

Lisboa, Julho-Agosto de 1975






quarta-feira, 8 de abril de 2009

Isto não é um tributo


Passam hoje quinze anos sobre a morte de Kurt Donald Cobain. Passaram já quinze anos sobre a morte do mito de toda uma geração, da dos grungers dos anos noventa. Naquele tempo não havia ipods, eu ouvia Nirvana num walkman vermelho que tornava a voz rouca e sofrida de Cobain em algo ainda mais ranfonho, ainda mais doloroso, não para os ouvidos adolescentes, mas para um interior também adolescente que se julgava tão sofrido quanto o dele.

Hoje ouço na perfeição, no meu ipod, aqueles clamores roucos, até os sussuros tímidos daquele já há muito havia partido por dentro, mas que se mostrava perfeitamente criança no comprimento louro do seu cabelo sempre desgrenhado. Morreu a oito de Abril de 1994. Oficialmente suicidou-se mas, quanto a isso há diversas teorias. O que importa realmente é saber que os miúdos continuavam a deixar crescer os cabelos de oiro até aos ombros, não deixaram de usar as velhas camisolas de malhas listradas a vermelho e preto nem de pegar nas suas guitarras para chorar as suas vidas, nuvens carregadas.

Quem se lembra dele hoje? Ou melhor, quem consegue esquecer? Aquele unplugged na MTV, cuja decoração, aos olhos de hoje, pareceria já um prenúncio, a forma como cantava Pennyroyal Tea, a maneira única de pronunciar “girl” e “the man who sold the world”, os solos da guitarra triste, o sublime e a treva em cada palavra.

Já passaram quinze anos sobre o tímido florescer da minha adolescência rebelde e ainda gosto tanto da voz de Cobain a dizer as suas palavras de dor. Já não é uma dor adolescente, é uma saudade boa da dor adolescente.

reticências


Quero gozar as letras. Olhá-las, admirá-las, tocá-las cuidadosamente, religiosamente, Tê-las nas minhas mãos cautelosas como se as letras se tivessem tornado, cada uma delas, num vaso da dinastia Ming, para depois as virar do avesso e formar palavras sem sentido, só para saber-lhes o gosto. Por experiência própria aconselho as palavras inventadas porque normalmente são doces e não têm bicho, já as palavras do léxico da realidade são frequentemente amargas e apodrecem de tanto que as gastam. Ainda assim gosto de brincar com as letras, agradam-me como o desafio de um puzzle, moldam-se como o barro e os mais ágeis oleiros são os que inventam as palavras belas que trazem sorrisos presos consigo. Há, por outro lado, oleiros com menos destreza que, caindo numa distracção, apresentam como trabalho final um prato tosco e retorcido, que mal se pode cozer, tal como há palavras difíceis de engolir, custosas de deglutir, que deixam um amargo de boca e basta pensá-las, verbalizá-las é nada.

Quando penso nas letras e lhes mexo e as transfiguro sou criança livre, sou Mia Couto tresloucado, recrio o lexical real como se o léxico fosse uma amálgama-mosaico de plasticina colorida. Que bom é ter um idioma próprio, que triste é só eu conhecer-lhe o sentido. Mais triste ainda é perceber que há palavras-amargas impossíveis de transformar em palavras-sol, por mais cores que se lhe ponha nada lhes tira a malícia intrínseca, por melhor que seja o eufemismo, a metáfora, a sinédoque. Nada.

Tanto as palavras-sol, como as palavras-amargas, assumem todo o tipo de formas e é óbvia a preferência dos falantes pelas primeiras, simplesmente porque nos transmitem algo de bom. Não retirando nunca as palavras-sol do topo das minhas preferências, admito o meu fascínio pelas palavras-amargas, pelo seu poder de se sobreporem a todas as outras e terem criado uma ditadura de trevas no mundo lexical. Exemplificando: se tivermos uma palavra claramente sol, como o substantivo “amigo”, e lhe juntarmos, por exemplo, um adjectivo amargo do tipo “triste”, obtemos sempre um enunciado amargo. O mesmo irá acontecer, por exemplo, com um verbo e um advérbio, como “sorrir desoladamente”. Nunca tinha pensado nisto. Mas há, obviamente, excepções, como qualquer regra tem para ser confirmada. Se eu pensar no verbo “rir” e no substantivo/adjectivo “miserável”, posso fazer, pelo menos, dois tipos de enunciados com sentidos opostos: “rir para um miserável” ou “rir de um miserável”. Acho que isto depende da regência do verbo.

No fim de contas, nem era isto que eu queria dizer. Acho que tinha começado a escrever acerca do facto de gozar as palavras por outra razão completamente diferente. Prendi-me nas palavras como me prendi no contorno leve da tua sombra posta no chão, perdi-me por entre as reticências que vais deixando, que são espaço abertos para eu preencher com palavras minhas, para os outros preencherem com palavras deles. É kafkiano e a dúvida é desassossego. Ainda não inventei palavras para os intervalos das tuas reticências. Ou sou má oleira ou o alfabeto tem poucas letras para as palavras que já gastei.

105

«Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, stóico sem dureza
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras. »
Ricardo Reis

quarta-feira, 1 de abril de 2009

dia das mentiras


«Semente, semente, semente
Semente, semente
Se não mente fale a verdade
De que árvore você nasceu?

De onde veio
De onde apareceu
Porque que o meu destino
É tão parecido com o seu?

Eu sou a terra
Você minha Semente
Na chuva a gente se entende
É na chuva que a gente se entende
Oh Semente!

Semente, Semente, Semente
Semente, Semente
Se não mente fale a verdade
De que árvore você nasceu?

Semente eu sei
Tem gente que ainda acredita
E aposta na força da vida
E busca um novo amanhecer
Lá vem o sol
Agora diga que sim
Semente eu sou sua terra
Semente pode entrar em mim...

Semente, Semente, Semente
Semente, Semente
Se nao mente fale a verdade
De que árvore você nasceu?

Se conseguir
Aquilo que você quer
E conseguir manter
A nobreza de ser quem tu é
Tenha certeza
Que vai nascer uma planta
Que a flor vai ser de esperança
De amor pro que der e vier
Oh Mulher!

Semente, Semente, Semente
Semente, Semente
Se nao mente fale a verdade
De que árvore você nasceu?

Se conseguir
Aquilo que você quer
E conseguir manter
A nobreza de ser quem tu é
Tenha certeza
Que vai nascer uma planta
Que a flor vai ser de esperança
De amor pro que der e vier
Oh Mulher!

Semente, Semente, Semente
Semente, Semente
Se nao mente fale a verdade
De que árvore você nasceu?

Semente, Semente, Semente
Semente, Semente
Não mente!»

Armandinho

sábado, 28 de março de 2009

Como Orfeu III



Já quase não havia sol quando voltei para casa, ao fim da tarde. As nuvens cobriam os raios ainda quentes que se ia desprendendo do céu quando, subitamente, me deu uma vontade imensa de visitar a casa da vó velha. Queria só ver, recordar, matar saudades-meninas que ainda me perseguem, de vestido amarelo e sapatos de verniz. Ao jeito de Orfeu, quis olhar para trás, só por um segundo, para ter calmas e certezas e, com esse olhar, como ele, anulei a última hipótese de conservar o que me era querido.

Sem pensar duas vezes, dirigi-me àquele beco estreito que mal consegui reconhecer, parecia-me mais estreito que nunca, como se tudo fosse uma miniatura de um passado-infância. Que saudade imensa. Que desilusão tremenda. Os muros pintados de vermelho e os vasos riscados de cor e carregadinhos de sardinheiras já não existiam. Parei diante do velho portão preto, que havia sido vermelho e, antes disso verde, não que me lembrasse disso, mas porque o desgaste da tinta mo recordou, não contive as lágrimas não-sei-de-quê, que rolavam estupidamente, saíam-me dos olhos, desciam-me pelo queixo e morriam-me no pescoço.

“Porque te martirizas assim?” – perguntou-me. “Porque preciso de ver.” - respondi-lhe eu, não verbalmente, automaticamente. Parei diante da porta principal e fitei o chão cimentado, demoradamente. Como que acto reflexo, empurrei a porta de madeira, à minha direita, que dava para o jardim, para o forno de cozer a broa, para o velho lava-loiça de mármore, para o tanque, para o pedestal de alecrim. O jardim não é agora mais que uma intransponível montanha de silvas, do forno não restavam senão as paredes que ainda conservavam, incredulamente, um branco caiado. Não vi nenhum lava-loiça, nem o tanque, nem o alecrim, como se tivessem sido apenas partes do cenário de um sonho que eu tive e jamais tivessem existido nesta realidade. Vi, apenas, um prato branco esquecido no chão.

Sem poder transpor, mas apenas entrever o jardim que tinha sido meu e tão diferente, sem poder empurrar a porta para aquele pequeno paraíso-criança mais do que um olho pudesse espreitar, dirigi-me, mais uma vez sem pensar, como se fosse ainda a menina do vestido amarelo, até à adega. Não há palavras em dicionário algum que possam descrever o meu espanto perante aquele cenário. A porta da adega estava aberta e não pude deixar de pensar em como me parecia tão maior quando era catraia. O caos, o lixo amontoado, o nada que restara, a certeza de outras presenças por ali deram-me vontade de fugir daquele sítio, que um dia me tinha sido tão querido.

Olhei para trás à procura das andorinhas de barro pintado que estavam penduradas na parede da casa, ao lado da porta de entrada, mas elas não estavam. Não me lembro de alguma vez ter reparado no Santo António que está mesmo por cima da porta, a segurar o Menino, como tu me seguravas. A medo estendi a mão para a porta gasta, senti-lhe as rugas de outros tempos, quase a mesma alegria com que sempre entrava por ali, num furacão de risos. Empurrei-a e a porta cedeu o suficiente para que eu pudesse reconhecer, lá bem ao longe, no fundo dos destroços, o papel de parede com um padrão em tons de laranja. Como é possível ter-me esquecido dele? E onde estaria o Fiel, o cão de loiça que a vó velha sempre disse que haveria de ser meu? Debaixo dos destroços, com certeza, quebrado em puzzle impossível de terminar. Afinal os cães de loiça também têm o seu prazo de vida e o do Fiel, para dálmata e loiça, foi bastante bom. De olhar desperto procurei aquilo que era a cozinha, as escadas para o andar de cima, tentei reconhecer o sofá da sala e o cadeirão branco, de palhinha. Nada. Para onde teriam levado tudo?

Virei costas, desoladas, por não reconhecer aquela casa, por ser apenas e vagamente parecida com a casa da vó velha da minha infância. Voltei a olhar a fachada rosa e alta Já nem me lembrava daquelas janelas pequeninas nos andares superiores. Ainda tinham as cortinas de renda branca. A parede conservava, teimosa, o painel de azulejos, azul e branco, lá no alto, com a imagem do Santo António. Intacto. Escapou-me um sorriso por entre as lágrimas quando vi uma menina de tranças loiras, a espreitar pela janela do topo, com os seus olhos-girassóis. Ainda é a tua casa, vó velha. Já me lembro. Vejo-te no fogão a fazer sopa de legumes, poiso o açucareiro bojudo com a estampa de um gato preto na mesa redonda, subo as escadas até ao teu quarto e espreito, pela centésima terceira vez o vestido de casamento da avó, subo mais um andar e ponho-me à janela, sentada numa cadeirinha baixa, à espera que venhas contar-me, mais uma vez, a história da velha e da cabaça.

Fechei os olhos e só os abri quando já só via a saída do beco estreito. Quero deitar fora a imagem dos destroços de agora para, no lugar dela, colar a imagem da casa tosca e rosa da vó velha, da minha infância, que um dia quis para mim.

«Milímetros»

«(sensações de coisas mínimas)

Como o presente é antiquíssimo, porque tudo, quando existiu foi presente, eu tenho para as coisas, porque pertencem ao presente, carinhos de antiquário, e fúrias de coleccionador precedido para quem me tira os meus erros sobre as coisas com plausíveis.

As várias posições que uma borboleta que voa ocupa sucessivamente no espaço são aos meus olhos maravilhados várias coisas que ficam no espaço visivelmente. As minhas reminiscências são tão vívidas que [?] .

Mas só as sensações mínimas, e de coisas pequeníssimas, é que eu vivo intensamente. Será pelo meu amor ao fútil que isto me acontece. Pode ser que seja pelo meu escrúpulo no detalhe. Mas creio mais - não o sei, estas são as coisas que eu nunca analiso. - que é porque o mínimo, por não ter absolutamente importância nenhuma social ou prática, tem, pela mera ausência disso, uma independência absoluta, de associações sujas com a realidade. O mínimo sabe-me a irreal. O inútil é belo porque é menos real que o útil, que se continua e prolonga, ao passo que o maravilhoso fútil, o glorioso infinitesimal fica onde está, não passa de ser o que é, vive liberto e independente. O inútil e o fútil abrem na nossa vida real intervalos de estética humilde. Quanto não me provoca na alma de sonhos e amorosas delícias a mera existência insignificante dum alfinete pregado numa fita! Triste de quem não sabe a importância que isso tem!

Depois, entre as sensações que mais penetrantemenete doem até serem agradáveis, o desassossego do mistério é uma das mais complexas e extensas. E o mistério nunca transparece tanto como na contemplação das pequeninas coisas, que, como se não movem, são perfeitamente translúcidas a ele, que param para o deixar passar. É mais difícil ter o sentimento do mistério contemplando uma batalha, e contudo pensar no absurdo que é haver gente, e sociedades e combates delasé o que mais pode desfraldar dentro do nosso pensamento a bandeira de conquista do mistério - do que diante da contemplação duma pequena pedra parada numa estrada, que, porque nenhuma ideia provoca além de que existe, outra ideia não pode provocar, , se continuarmos pensando, do que, imediatamente a seguir, a do seu mistério de existir.

Benditos sejam os instantes, e os milímetros, e as sombras das pequenas coisas, ainda mais humildes do que elas! Os instantes, [?]. Os milímetros - que impressão de assombro e ousadia que a sua existência lado a lado e muito aproximada numa fita métrica me causa. Às vezes sofro e gozo com estas coisas. Tenho um orgulho tosco nisso.

Sou uma placa fotográfica prolixamente impressionável. Todos os detalhes se me gravam desproporcionadamente a haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior é-me sempre evidentemente sensação. Nunca me esqueço de que sinto.»



Livro do Desassossego,
Bernardo Soares

sexta-feira, 27 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

Hoje não é o Dia Mundial da Poesia. Esse dia já passou, no bom senso de todo o mundo. Mas a mim apetece-me que o Dia mundial da Poesia seja hoje. Pode ser? Aprovaria o mundo que assim fosse? E também quero comemorar a poesia amanhã, durante o fim-de-semana, o ano inteiro. O que é o Dia Mundial da Poesia, afinal? É um dia que os homens decidiram ser destinado a recitar e ouvir recitar poemas? Gosto de ouvir Villaret a dizer poemas, mas qualquer dia me parece bom para o fazer.

Poesia é todos os dias. É o que já passou, o que sucede ou o que pode vir a acontecer. Não podemos tocar a poesia nem fazê-la parar por instantes, muitos não sabem onde encontrá-la, nem eu conheço todos os seus recantos porque, ínfima, se recolhe sob qualquer pétala, qualquer pedra. No entanto, afigura-se-nos tão espampanantemente singela no abrir de um botão de rosa, no riso sincero dos garotos, na languidez das tardes quentes, na voz da mãe, nos grãos de areia que invadem os pés descalços, na caligrafia do avô, na espuma das ondas, nos olhos de um gato, nos nossos próprios olhos e, até, nas nossas próprias lágrimas.

O poeta é o artista ímpar que tem o dom de usar as palavras certas, pintor único da beleza do pormenor, que comete, por vezes, a ousadia de rimar estórias e glosar sentimentos. É o estóico e o epicurista, o realista e o utópico, o novelista e o modernista, o conservador e o experimental. Não é um fazedor de poemas, é um arquitecto de sensações lexicalizadas.

Dia mundial da poesia. E recordo Villaret a dizer Liberdade

«Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...»

quarta-feira, 25 de março de 2009

Como Orfeu II


Não resisto, qual Orfeu desobediente, a espreitar as brechas fugazes que o passado vai semeando, portas encostadas ao acaso que alguém se esqueceu de fechar. Antes as tivessem trancado para sempre e o pensar não doía na memória. As minhas mãos estendem-se para as fotografias velhas e os dedos ébrios tentam trazer de volta aqueles rostos baços, que tempo vai tentando apagar.

Porque olhaste para trás, Orfeu? Atrás agora é abismo e nada, e esse nada nublado e desconhecido é a base do terror da morte que só os orates, sãos dos olhos, ignoram sabiamente. Preocupamo-nos com a morte ansiosamente, desesperadamente, mesmo que não tenhamos consciência disso. Deixamos de lado os mistérios ocultos da própria morte, ou porque não queremos sequer pensar nisso, ou porque todas as teorias que tentam explicá-los acabam por nos parecer densamente ocas, consistentemente vagas, conscientemente absurdas. O que realmente nos aterroriza é a ausência física, um nunca mais tornar a ver, nunca mais ouvir, nunca mais cheirar. A mudança irreversível que faz crescer por dentro uma certeza de fim, de um inevitável nunca mais. Queria tanto poder acreditar na tentada teoria reconfortante que nos faz crer que a morte é um sono agradável, um eterno descanso. Mas recuso-me a acreditar nisto pelo simples terror de pensar num sono do qual jamais se acorda. É absurdo e aterrador. Desassossego-me. «Pequena vida consciente, sempre/ Da repetida imagem perseguida/ Do fim inevitável». (Ricardo Reis)

Foi quando os “comedores de lótus” do professor Delfim devoraram Satyricon que a consciência do fim de tudo e da visão de um imenso nada se abateu sobre a minha cabeça e foi trepando, gananciosa, a montanha dos meus medos intrínsecos. Lembro-me do meu próprio espanto perante o espanto de Encólpio e Gíton no festim de Trimalquião. O anfitrião apreciava, realmente, o requinte ostensivo, o espectáculo de si mesmo, o que o fazia cair no abismo do ridículo e do mau gosto. No entanto, os seus gestos apotropaicos, a bizarra encenação da sua própria morte, a preparação prévia de um epitáfio e uma curiosidade imensa quanto às reacções dos outros perante a sua partida não me pareceram atitudes totalmente absurdas. O que ele tinha era uma infinda e assustadora consciência da contagem decrescente do tempo de uma vida. Ao contrário de Trimalquião, eu sou avessa aos tiquetaques dos relógios, ao bater das horas porque, tal como ele, tenho plena consciência de que cada tiquetaque é um ladrão de vidas, um pulha que nos grita finitude. E como será a reacção dos que me são próximos? Que dirão de mim? Escrever-me-ão versos no epitáfio ou terei de ser eu mesma a fazê-lo? O que farão com as coisas que guardo com carinho? Que restará de mim senão memórias?

Porque continuo a olhar para trás, como Orfeu? Olharia Trimalquião para o seu passado no pouco tempo em que não se preocupava com o futuro? Eu continuo esperar, de olhos bem abertos, rasgos de outros tempos para neles me perder, propositadamente. E então, quando o passado me leva de volta por instantes, fecho muito os olhos para ver os meus mortos queridos, para que voltem a ser presente, para que nunca lhes esqueça a voz e possa sempre saber de cor os traços dos seus rostos quando sorriam. Despiram os trajes da vida e deixaram-nos por aí, ferrões aguçados no fundo da memória. A bata florida e desbotada da vó velha parecia ainda ter no bolso direito o chocolate que comprava na mercearia e que era só para mim. Quando encontrei a boina axadrezada do avô, esquecida no velho toucador, embora soubesse que tinha sido lavada, quis sentir-lhe o cheiro dos cabelos que penteava meticulosamente, depois de tirar o pente castanho do bolso traseiro das calças. A camisola vermelha que te conhecia, levaste-a contigo, e, ao vê-la vestida no teu corpo inerte, nesse último dia, fez-me temer destapar-te a face para te beijar, amigo, porque quero recordar para sempre o teu rosto menino. Estas são quase presenças vagas que parecem querer, por breves instantes, compensar as ausências abismais. São conforto em forma de lágrimas.

Guardo no fundo não sei bem de quê nem onde todas as memórias-cheiro, memórias-sorriso, memórias-palavra, memórias-segredo, para com elas me reconciliar e poder ver, com mais clareza, o meu futuro. Não quero nunca desfazer-me das minhas memórias como se faz aos livros que contam as histórias de antigamentes, quero antes levá-las (sim, levá-las, não carregá-las, mas transportá-las com leveza) comigo pela vida fora, porque a ela pertencem, e torná-las vivas em palavras-história. Os meus mortos queridos deixaram muitas histórias por/para contar. Encarregar-me-ei disso. Sem lágrimas, um dia.

[Festim de Trimalquião]

«Tinha chegado já o terceiro dia, aquele em que esperávamos ganhar um jantar livre de entraves, mas sentíam-nos tão abatidos com aquelas provações que mais nos agradava a fuga que o descanso. E assim, era sem ânimo que discutíamos a maneira de nos livrarmos da presente aflição, quando um escravo de Agamémnon nos deixou em sobressalto, ao anunciar:
- Então? Vocês não sabem em casa de quem se faz hoje a festa? É Trimalquião, um tipo cheio de classe, que tem na sala de jantar um relógio e um corneteiro todo aperaltado, para saber, a cada momento, quanto tempo da sua vida se escoou.»

Satyricon, Petrónio
tradução de Delfim Leão

terça-feira, 24 de março de 2009

40.

«Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a materializar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - certo é que sinto como se, no fim de o piorar de um doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.

Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Porque o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte de um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.»


A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.»

Bernardo Soares,
Livro do Desassossego (fragmento 40)

terça-feira, 17 de março de 2009

(ir)realidade interior do exterior

Era aqui que eu queria chegar quando falei da adequação linguística de cada falante ao Mundo que percepciona, que é de todos e é só seu. Era isso e muito mais, esse mais já posto em palavras por Soares e, possivelmente, já pensado por outros que disto se lembraram. Era mesmo isso, e não só.

Eu não invejo a partilha de sensações com outros, porque as minhas não são as de outros, embora me conforte, de certa forma, o saber que não estou sozinha perante um qualquer espanto, um rasgo de beleza, uma tristeza infinda. Tenho para mim cada sensação como marcadamente distinta das sensações de outros perante uma mesma realidade ou um sonho idêntico. Mas se, por um instante, me parecer que a sensação que é minha está tão próxima da de outro ao ponto de quase se confundirem, sinto o cofre da minha alma devassado, como se me entrassem dentro dos pensamentos mais oblíquos e me roubassem o incalculável tesouro da individualidade sensacional. Esse instante passa num de repente, porque volto a cair na doce ilusão dos sentidos que sei serem exclusivamente meus.

Recordo a cameleira, que não consigo ignorar quando passo, e penso na verdade dos olhares que sobre ela já caíram e dos pensamentos que ela terá suscitado, muito possivelmente semelhantes aos meus. Inquieto-me. E não duvido que tenham reparado nas flores que se curvam por debaixo dela, numa servidão de flor primaveril, efémera por isso ainda mais bela, porque é assim que funciona, porque tudo o que é raro ou irremediavelmente finito tem mais valor que um diamante de data de validade vitalícia. Desassossega-me saber que o jardim que queria só meu não é invisível aos outros olhos que por ele passam, mas sossego imediatamente, de educada que fui, também, pelo meu Mestre, a esbugalhar os olhos e a absorver a paisagem que eles me mostram e, depois, reformulá-la por dentro, escutando a música leve que solta e nos segreda sonhos, cheirando-a e deixando-nos levar numa viagem olfactiva a realidades que nunca tenham, talvez, existido. Quando era miúda e o vento soprava por entre o eucaliptal, empoleirava-me no muro caiado de branco e cantava, porque o eucaliptal era uma plateia em delírio com a estrela que era eu e cada eucalipto era um indivíduo e o vento que os fazia sibilar era uma espantosa ovação no fim de cada música. É este o mistério da substituição do visível: escutar com os ouvidos e com os olhos de quem sonha o que o interior de um exterior real nos diz, individualmente. E mais do que ver e escutar, é importante que se sigam os instintos que a paisagem nos provoca, viver o sonho da irrealidade tornada verdade, nem que por breves instantes.

No Cais do Sodré viste um pagode chinês. Eu, por entre as laranjeiras do quintal, que eram naquele agora, que não sei quando foi, cerejeiras floridas, vi todo o esplendor de um fim de tarde em Kyoto: sob os ramos das cerejeiras espreitei as mulheres que apreciavam cada nanossegundo da queda de uma flor, desde o momento em que, tragicamente, se desprende da árvore, se desfaz em pétalas de uma rara leveza cor-de-rosa, até que cai no chão, desfeita, e se deixa levar pela brisa. Quase posso jurar que passou por mim uma borboleta e que deixou no ar um cheiro a chá verde e a jasmim, havia lanternas e fogo de artifício, pareceu-me ouvir, ao longe, o farfalhar sedoso dos kimonos e os estalinhos suaves dos passos que as mulheres iam deixando pela relva.

O cheiro das laranjas doces trouxe-me de volta ao jardim que já conhecia, arrancou-me do outro jardim onde nunca estive, mas sei-o.

«A DIVINA INVEJA»

«Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo, deles.

A grande dificuldade do orgulho que para mim oferece a contemplação das paisagens, é a dolorosa circunstância de já as haver com certeza contemplado alguém com um intuito igual.

A horas diferentes, é certo, e em outros dias. Mas fazer-me notar isso seria acariciar-me e amansar-me com uma escolástica que sou superior a merecer. Sei que pouco importa a diferença, que com o mesmo espírito em olhar, outros tiveram a paisagem um modo de ver, não como, mas parecido com o meu.

Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a torná-lo irrefragavelmente meu – de alterar, mantendo-a mesmamente bela e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente – e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.

Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.

Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais – curioso e dificílimo triunfo do êxtase, tão difícil porque o agente evocativo é da mesma ordem de sensações que o que há-de evocar. O meu triunfo máximo no género foi quando, a certa hora ambígua de aspecto e luz, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos – curioso pagode chinês pintado no espaço, sobre o espaço-cetim, não sei como, sobre o espaço que perdura na abominável terceira dimensão. E a hora cheirou-me verdadeiramente a um tecido arrastado e longínquo e com uma grande inveja de realidade…»




Livro do Desassossego,

Bernardo Soares

quarta-feira, 11 de março de 2009

«Eu não escrevo em português.»

Aprende-se, estudando linguística, que o falante tem liberdade para se apropriar do léxico para criar os seus próprios enunciados e que é ele o único responsável por manter a língua como organismo vivo, em constante mutação. Só não se aprende, porque ainda ninguém conseguiu descobrir, quais são e como funcionam os mecanismos mentais activados pelo sujeito para uma proeza tão banal: falar, escrever, pôr em palavras o mundo extra-linguístico, o suposto palpável que nos rodeia.

Bernardo Soares deixou-nos o palpite. Guiemo-nos por ele durante breves instantes. Pensemos, por exemplo, na palavra “água”. Em qualquer língua que seja, toda a gente lhe conhece o significado, a definição canónica, as suas principais características e utilizações possíveis. O cérebro de cada um tem, com certeza, incontáveis informações acerca da água, mas o saber que dela universalmente partilhamos é claramente geral, assustadoramente oco. Além da definição de água que é partilhada, cada indivíduo a descreve ou pensa no seu conceito sem nunca se desligar da sua própria relação com a própria água, do prazer que é só seu de tomar um banho quente, da sofreguidão com que a bebe quando tem sede e de como fica saciado. Todos o fazem, mas cada um se apercebe do mesmo à sua própria maneira.

Os japoneses, por exemplo, têm duas palavras para “mãe”. Fazem uma distinção muito clara quando se referem à mãe de outrem e à sua própria mãe. Não terá isto toda a lógica do mundo? Se todos sabemos o que é uma “mãe”, mas se todos pensamos na nossa própria mãe como diferente de todas as outras, não deverá ela ser mais do que o vago conceito do ser que nos trouxe ao mundo? A “mãe”, como todos a imaginamos, é aquela que nos acarinha e trata de nós, que cozinha e arruma a casa, que nos beija a testa e nos vai carregando pela vida, que é mulher corajosa e “pau-para-toda-a-obra”. Mesmo assim, esta “mãe convencional”, ou “mãe desejável”, é sempre diferente da nossa, porque a mão que nos acarinha não é a mesma, porque o seu cheiro é especial, porque a boca com que nos beija é só dela e aquele beijo é exclusivamente nosso.

Esta manhã olhei pela janela e o céu estava azul e o sol já brilhava como deve em tempo de Primavera. Mas os outros já o sabiam. Reparei, mais uma vez, em como o pinhal voltou a verdejar em tão pouco tempo. Tantos outros repararam no mesmo. As grandes pintas amarelas, ao longe, no limoeiro da vizinha, chamaram-me a atenção e olhei para elas demoradamente. Outros já o fizeram. Deixei cair os olhos nas folhas escuras da cameleira, nas hortênsias que despontam, nas violetas que vão murchando, na gata malhada que passa e me olha, sorrateiramente. Nada que outros não tenham visto já. Tudo acaba por parecer banal, mas a questão é que eu não falo nem escrevo português. Eu, tal como todo o pensante-falante-que-também-escreve, mordo a linguagem e faço com que se entranhe em mim e seja parte do que sou.

Não pretendo, de forma alguma, tornar isto que escrevo numa enfadonha recensão sobre a apropriação do sistema linguístico por parte do falante. Quero só estar certa de que cada palavra tem em si uma explosão de individualidade. Escrevo na língua com que penso, que foi a que inventei para realizar em palavras mentais ou impressas aquilo que percepciono do Mundo, perante o qual sempre me espanto, ao qual vou adaptando a língua que há. O céu, pinto-o eu com o meu azul-de-céu e o sol tem a forma e o brilho que só eu lhe sei. O pinhal tem o meu próprio verde-luz que nasce ante os meus olhos. Conheço os limões de amarelo-ácido que apenas vejo no quintal da vizinha melhor do que ela. E as folhas da cameleira, só eu sei como são verdes-verdes, como os olhos da Joaninha de Garrett, porque as vi verdejar a cada manhã. Conheço a paleta de cores de cada folha de hortênsia, porque fui eu que as pintei a aguarela, e se-lhes o tacto porque lhes passei os dedos mil vezes cem mil vezes. Ninguém, melhor do que eu, sabe porque nasceram misteriosamente, diz-se, as violetas, que se escondem por debaixo das hortênsias, sei que murcham porque se sentem cansadas do seu luto-roxo. Só eu sei ler, nos olhos amarelos da gata malhada, a saudação matinal e gozona que só os gatos sabem fazer e que nos deixa preso aos lábios um sorriso de manhã de sol.