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quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Fulaninho de Cartago

Mais uma vez o Thíasos surpreendeu pela positiva na abertura do XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico, com a magnífica peça O Fulaninho de Cartago, de Plauto, apresentada com a nova tradução, sempre mais coloquial e acessível, do professor José Luís Brandão, também seu encenador.

Foi desta que convenci um velho amigo a juntar-se a nós para ver a peça. Nessa noite, o espaço em frente ao Teatro Paulo Quintela, que me pareceu sempre bastante amplo, estava coberto por um mar de gente que queria mesmo ver Plauto. Não eram só os grandes professores da área de clássicas, mas gente de todas as áreas e de todas as idades. Depois do tempo de espera para entrar, nada de especial embora anormal para o costume, a desilusão de já não haver um daqueles livrinhos com os trechos da peça… Apesar de termos conseguido chegar a horas, sentámo-nos nas filas de trás. E fez-se silêncio.

No palco apareceu o caríssimo professor Delfim Leão, fazendo alguns agradecimentos e fornecendo ao público as linhas gerais da peça e do seu contexto histórico. Aqueles gestos, o tom de voz, trouxeram-me imediatamente à memória as saudosas manhãs de aulas de Cultura Clássica. Quanto aprendemos com ele! Descontraído, correu para fechar as cortinas da entrada grande sala e desapareceu por entre as cortinas do palco.

As luzes acendem-se e destacam-se as entradas de um lupanar e de uma casa das redondezas. Do lupanar sai uma jovem que, servindo de coro, nos canta as aventuras de Agorásteles, o rapaz que havia sido raptado de Creta juntamente com as suas primas. Fora adoptado por um velho misógino de Cálidon, na Etólia, do qual herdou todos os bens. Encontramo-lo agora apaixonado por Adelfásio, futura meretriz no lupanar de Lico, o Alcoviteiro a quem Agorástocles pretende dar uma lição. É o dia das afrodísias, a festa de Vénus. Lico, Carlos Jesus, entra em cena e encontra Antaménides, o soldado romano fanfarrão, a personagem-tipo que adora contar as suas façanhas fantasiadas, aqui interpretado por Delfim Leão, que nos brinda com uma sessão tão cómica e com tamanha convicção ao contar como matou os homens-voadores, que o público lhe responde com sentidas gargalhadas.

Mais tarde, Agorástocles alia-se ao seu escravo, Milfião, e ao seu caseiro, Colibisco, juntando um grupo de testemunhas para enganar o alcoviteiro. Entretanto, para surpresa de todos, surge Hanão, Joasé Luís Brandão, um cartaginês que é, afinal, o tio de Agorástocles e que descobre que as suas filhas são Anterástilis e Adelfásio. Estas são, finalmente, salvas e voltam para a companhia do pai. De destacar, também, o papel de José Luís Brandão e o magnífico sotaque que usou para fazer de cartaginês. Agorástocles fica com a sua apaixonada prima Adelfásio e Lico fica entregue a Antaménides.

Mais um momento bem passado. O XI Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico dura até Julho e aqui fica o programa: http://www.uc.pt/fluc/eclassicos/teatro/11festival

quarta-feira, 4 de março de 2009

Fui ver «As Vespas»


Ontem fui ver As Vespas. Entrei na sala do Paulo Quintela e aquele palco iluminado, a velha cortina de veludo azul, a ausência de conferencistas enfadonhos encheu-me de ânsia de ver a peça de Aristófanes. As luzes apontavam para Xântias, que relatava ao público, com uma voz-quase-segredo de escravo esfadengado, de cotovelo apoiado no joelho, cara encostada à mão, a história do velho Filócleon, que padecia de um terrível mal: o vício de julgar. Por isto Bdelícleon, filho do velho juiz, encarrega Xântias e o seu outro escravo, Sósias, de vigiarem o local onde tinha enjaulado o próprio pai, temendo que o velho fugisse durante a noite com outros juízes, seus amigos.

Eis quando, para espanto do público, durante uma encenada distracção dos dois escravos, um cortejo de velhos juízes, cobertos com os seus mantos e trazendo as suas lanternas, irrompe sala adentro chamando pelo seu velho amigo Filócleon. Empenhados em ajudá-lo a escapar, deixam cair os mantos e revelam os seus trajes negros, riscados de amarelo, cada um com o seu ferrão aguçado para espicaçar quem achassem que deveria ser julgado. Eram as vespas! E como se moviam sorrateiramente, empunhando o grande ferrão!

Apesar da sua ancestral e bem estudada estratégia, as vespas perderam a luta contra os escravos, curvadas já de velhice. Aceitando, sem outro remédio, a proposta de Bdelícleon, que havia conjecturado tudo para bem de seu pai, organizam-se para constituir o júri de um tribunal caseiro, ali mesmo no pátio, onde julgam o caso de um cão que era acusado por outro de ter roubado um queijo.

Mais tarde, numa discussão com o pai, Bdelícleon faz-lhe perceber os prazeres do homem boémio, contador de histórias, que se embriaga em faustosos banquetes, que aprecia a languidez do absurdo. E assim acabou a peça, em ambiente de festa, onde até o coro de vespas se juntou a uma dança contagiante.

O pano caiu. Os actores agradeceram e foram aplaudidos de pé. O público deixou a sala, já caída em silêncio. Saio calada e penso para dentro. Não seremos nós, convictos boémios, amantes do ócio dionisíaco, umas vespazinhas também? Não nos vestimos de negro riscado de amarelo, mas temos semelhantes ferrões, não na forma, mas na capacidade aguçada de ferrar. Padecemos do mesmo mal de Filócleon: uma terrível e incontrolável tendência para julgar.

terça-feira, 3 de março de 2009

«As Vespas»

«XÂNTIAS (depois de ter trancado a porta, sente que algo lhe cai em cima)
Ai de mim, desgraçado! De onde me caíu este torrão em cima?


BDELÍCLEON
Às tantas foi um rato que to atirou lá do alto.


XÂNTIAS
Um rato? Nada disso, caramba! É mas é um desses juízes, enfiado debaixo das telhas, um juíz de telhado.


BDELÍCLEON (olhando para o telhado)
Ai meu Deus, que azar o meu! Ali está o nosso homem armado em pardal. Vai levantar voo. Onde, onde raio está a rede? (Para Filócleon, como quem assusta um pássaro.) Xô, xô, toma lá outra, xô! C'um raio, melhor fora montar guarda a Escione do que aqui ao meu pai. (Filócleon é neutralizado e empurrado para dentro de casa.)


XÂNTIAS
Mas vá! Agora que prendemos de vez o nosso homem e que finalmente ele não arranja maneira de fugir, porque não tiramos só... só uma soneca?


BDELÍCLEON
Qual quê, esgraçado! Daqui a nada estão por aí a romper os amigos dele, os juízes, aos berros a chamar pelo meu pai.


XÂNTIAS
O que raio estás a dizer? Se só agora começa a amanhecer.


BDELÍCLEON
C'os diabos, tens razão! Hoje levantaram-se mais tarde. É que costumam aparecer a meio da noite, de lamparina na mão e a trautear umas modinhas delicodoces de Frínico para chamar por ele.


XÂNTIAS
Pois bem, se tiver que ser, enxotamo-los logo à pedrada.


BDELÍCLEON
Mas, ó meu patego, a raça deles é tal, que se se irrita um desses velhotes, comportmam-se como as vespas. E têm mesmo um aguilhão bem afiado que lhes sai pelo rabo, com que picam; dançam ao som dos seus zumbidos, e é vê-los atacar como raios.


XÂNTIAS
Não te preocupes. Enquanto tiver pedras à~mão, sou capaz de enxotar qualquer enxame de vespas.


[...]


CORO
Vamos! Toca a dar à perna por um bocadinho, todos nós, para ajudar à festa e para que estes possam rodopiar, à vontade,à nossa frente. (O coro divide-se em dois semi-coros. Um deles rodeia Filócleon e o outro os filhos de Cárcino. Ambos os grupos mostram as suas habilidades na dança.)
Vá, ilustres crias do Senhor dos Mares! Dançai na areia e na praia do mar não vindimado, ó irmãos dos camarões! Façam girar com rapidez os vossos pés, que cada ummande pontapés à moda de Frínico, de modo que os espectadores, ao verem a perna ir ao ar, soltem os seus "oh-op!" Toca a girar, dança em círculo e bate na barriga. Manda uma perna ao ar, perde-te em piruetas! (Entra uma figura vestida de caranguejo, representando o próprio Cárcino.) Aí está o vosso pai, o senhor absoluto das marés em pessoa, todo inchado pelos filhos que tem, os três dançarinos.
E agora, se vos agrada, deixai-nos sair a dançar, e depressa! É que nunca antes alguém se atreveu a semelhante proeza: terminar com danças um coro de comédia.


A dança prolonga-se durante alguns segundos. Saem todos.
»



As Vespas
, Aristófanes, apresentada ao público pela primeira vez em 422 a.C.
tradução do Grego de Carlos Martins Jesus