São desassossegadas as minhas horas plácidas quando percebo, por entre os ramos das cerejeiras, um interlúdio ficcional que vai rasgando velhos sonhos caleidoscópicos.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quinta-feira, 28 de março de 2013
Dum tardio desassossego,um tanto ou quanto febril
domingo, 10 de junho de 2012
Considerações sobre a selecção nacional e o patriotismo camoniano
terça-feira, 22 de novembro de 2011
De Cronos
Consome-nos.
Agarra-nos e leva-nos para longe
da nossa própria vida.
E é por isto que O temo.
Cronos comia os filhos
e do mesmo modo nos devora a juventude,
as amizades, as recordações e os pensamentos,
tudo o que julgamos ter de mais íntimo.
Mastiga-nos
com a saudade de calendas e idos.
Tortura-nos
com agendas e tique-taques.
Rouba-nos o sono e embriaga-nos
de ânsia de descanso.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pessoas que Pessoa não toca

Tenho diante de mim um jovem estudante. O cabelo escuro, os olhos cerrados sob o peso das grossas sobrancelhas, a sombra de uma barba adivinhada começam a desenhar um rosto de homem. É indubitavelmente mais alto do que eu, embora pareça encolhido quando sentado na cadeira sonolenta. Boceja. Cabeça sustentada na mão que se apoia no cotovelo mole, deslizante sobre a mesa. O cérebro pensante lateja e ainda assim boceja. Falo-lhe de Pessoa e do fingimento poético, conceito que ele parece absorver de imediato. Anuncio com suspense a criação da heteronímia e o entusiasmo que esperava ver materializa-se num sorriso gozão, como quem troça de um qualquer bêbado de porta de taberna. Abrevio a teoria, que se anuncia ao rapaz como um terror de infância tardia, porque um primo lhe disse que era assustador, como o papão que ainda mora debaixo da sua cama. Por vezes, quando leio uma ou outra passagem, mais emotiva ou mais inflamada, a minha voz fica trémula, embargada, e, não querendo que nenhuma sensibilidade da minha parte interfersse com o primeiro grande juízo do estudante, ouvimos a singeleza do ‘gato que brinca na rua’ na voz possante de Villaret - e nem isso lhe provocou um esgar, o mais microscópico tremelique, a menor sensação. Como posso pedir-lhe que aprecie um trecho da ‘Ode Triunfal’? Que moral me foi concedida para que o mande reconhecer a ‘dor de pensar’? Que saberá ele sobre a “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira”? Ele que terá quê, dezoito anos? O passado ainda não lhe é suficientemente distante para que sinta por ele especial saudade. “Não é da idade,não”, sussurra-me a memória. Na inocência dos meus dezasseis anos apreciava como a uma maçã sumarenta a leitura de Pessoa no jardim. E claro que não o entendia completamente. Ainda hoje seria arrogante da minha parte dizer que o percebo já que nem ele percebia o seu próprio ‘eu’. O que interessava era o gosto com que o fazia e, só aí gosto desenvolvido, teria vontade de querer saber os pormenores rebuscados das teorias que alguém foi inventando para a genialidade de uma pessoa que era tantas. Não és tu tantos, também, tantas vezes? Deixa-o bocejar. Não é isso que me incomoda. Tantas vezes bocejei eu nas aulas de estudos pessoanos, embalada na voz grave do respeitável lente, e sabia-me tão bem. Era um bocejar feito do mais puro deleite e de aborrecimento tinha muito pouco. Aceito que haja pessoas que Pessoa não toca, mas acredito, secretamente, que isso ainda se cura com um cházinho, pelo menos até determinada idade.
domingo, 20 de março de 2011
«José e Pilar» de Miguel Gonçalves Mendes

É um filme de momentos, de fragmentos que acompanham o processo de escrita d' A Viagem do Elefante, com todos os percalços incluídos, as consequentes e cansativas viagens de apresentação da obra, a dedicação à biblioteca, revelam-nos um Saramago de força e de garra, com uma sede insana de escrever (impondo a si mesmo a “obrigação” de escrever, pelo menos, duas páginas por dia), organizado e metódico, ainda assim surpreendentemente divertido para alguém que se descrevia a si mesmo como carrancudo.
Além da perspectiva de Saramago, é-nos fornecida a feminina, a de Pilar, “o seu pilar”, o incansável reverso da medalha, apreciadora maior do seu trabalho, seu braço direito, suas pernas muitas vezes. Pilar foi, tal como a escrita, na vida de Saramago, um bem tardio, um amor intenso. O homem que não temia a morte, afirmando a inexistência de um “céu” na ironia de um sorriso, queria apenas tempo, para escrever, viajar e amar, por não ter tido oportunidade de o fazer antes. As palavras vão brotando, perfeitas e simples, como ‘a casa’, como os pequenos prazeres, como a insistência em aportuguesar tudo, sinal do eterno amor à pátria, que era a sua língua.
Não há, em momento algum, tentativa de endeusamento do escritor e pensador, nem o aproveitamento do impacto da sua ainda recente morte. É cativante porque simples e perfeito, íntimo e divertido. Poderia prolongar-se por mais um par de horas, que não causaria enfado algum.
"Subi ontem à Montanha Blanca, lembro-me de ter pensado enquanto subia - se caio aqui,me mato, acabou-se, não farei mais livros - não liguei ao aviso a única coisa realmente importante que tinha para fazer naquele momento era chegar lá acima."
quinta-feira, 17 de março de 2011
After Dark - Os Passageiros da Noite

After Dark é o perfeito desenrolar de um novelo de histórias que se sucedem numa só noite. A inquietude e a solidão, a cidade que nunca dorme, a criminalidade, a sociedade japonesa, o crime organizado chinês, as relações sociais e os laços familiares, a música e o cinema, o sono, o sonho. Todos estes temas são abordados de modo ordenado e preciso, sucedendo-se e entrecortando-se, certos como ponteiros de relógio, tratados no momento oportuno da narração, alguns sobejamente desenvolvidos, outros apenas subtilmente sugeridos. Desta feita, Murakami aproxima o leitor da narrativa através de uma interessante adaptação de técnicas cinematográficas à descrição literária, permitindo-nos visualizar o cenário de um modo bem mais ‘real’ e palpável dentro daquilo que é o nosso próprio imaginário. Algumas páginas volvidas e torna-se impossível não reparar nos pequenos relógios desenhados no canto superior direito da página que inicia cada capítulo, indicando-nos a passagem do tempo com precisão.
«Five Points After Dark» como música de fundo. A descrição da paisagem urbana. Mari Asai encontra-se num café, fugida da pressão familiar que a tenra idade não suporta. É lá que se encontra com Takahashi, um músico de jazz que não resiste à tentação de abordar a jovem a propósito da sua bela irmã. É de Eri Asai que fala o músico, encantado, a irmã de Mari que havia anunciado aos pais, dois meses antes, que iria dormir por tempo indeterminado, mantendo-se num sono profundo até à data do relato. Logo depois, é-nos dada a perspectiva do quarto de Eri, todos os pormenores nos são fornecidos com uma extraordinária minúcia, mas é a televisão que subitamente se liga que nos prende a atenção: do lado de lá está o ‘homem sem rosto’, que a observa e vai entrando na realidade daquele quarto, de modo medonho. A nossa atenção volta-se de novo para Mari, cuja noite de evasão é interrompida por um outro percalço, chamada a intervir como tradutora numa situação que envolve um ‘hotel do amor’, propriedade de Kaoru, e uma situação de violência com uma prostituta chinesa. Outra badalada, outro cenário, outra situação: o escritório de Shirakawa, o trabalhador de colarinho branco, empenhado, reprimido, evacuado numa vida dupla. A noite segue o seu rumo e as histórias paralelas alternam-se de modo rigoroso e interessante ao ponto de se desejar mais. Os diálogos fluidos de Mari com o músico ou com a proprietária e empregadas do Hotel Alphaville conferem ritmo à obra quando intercalados com os momentos fortemente descritivos do sono aparentemente imperturbável de Eri e do percurso de Shirakawa. Ao fim da noite, todos os cenários se vão compondo, todas as personagens vão ganhando densidade, todas as histórias se vão enovelando, sem que o fio nunca quebre ou se perca, antes pelo contrário: todo e qualquer pormenor interessa, tudo converge para uma só madrugada.
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