domingo, 10 de junho de 2012

Considerações sobre a selecção nacional e o patriotismo camoniano

«Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são para mandados,
Mais que para mandar, os Portugueses.»
Os Lusíadas, canto X, est.152, vv.1-4
Dizia hoje na tv, a propósito do jogo Portugal-Alemanha, o ilustríssimo professor dos portugueses, querer a vitória lusa «para ver a cara da senhora Merkl desfeita». Momento perdido no tempo, pausa para uma certa perplexidade. A emissão de uma conclusão seria qualquer coisa assim: Ora isto representa, de modo mais ou menos fiel, ainda que pareça ridículo, o resumo de todas as preocupações do povo português em plena crise económica. O encarar das dificuldades como uma disputa, o conseguir adulterar a imagem de luta social e transpô-la para dentro de campo, literalmente, esperando que seja um Ronaldo ou um Coentrão a salvar a nossa honra. Que honra há em pelejar num campo manchado pelo sangue de milhares de animais que pereceram à força de uma lei de emergência que nem num país de terceiro mundo faria sentido? Que honra há ainda em representar um país falido, usufruindo dos mais caros preparativos?
«...ver a cara da senhora Merkl desfeita...» Que significa isto? Suponhamos que a grandiosa equipa das quinas, vitoriosa depois deste jogo, causaria algum despeito à chanceler alemã - ficaria ela com a cara desfeita? Na boa vontade de supôr que sim, seria esta, para nós (?), mais do que uma vitória real e efectiva, uma vitória moral pela concretização do primitivo ideal de vitória sobre o poderoso e opressor? Não tendo acontecido nada disto, vê-se derrotada a selecção portuguesa no seu primeiro jogo do Euro 2012. Que quer dizer ‘vitória moral’?
Ah Camões, no teu dia junino, os patriotas contentam-se com a aceitação da derrota, com a subjugação à baixa e reles mediania. Os teus Argonautas, corajosos conquistadores dos elementos terrestres são agora os piegas que se alimentam dos insultos dos governantes que escolheram para os afundar num spleen baudelairiano sem retorno. Souberam da manifestação? Trinta mil soldados, debaixo de chuva e de austeridade, sem medo! E os outros? Os seus companheiros? Foram ao café ver a bola e cuspir sentenças por entre cascas de tremoço e arrotos com cheiro a cevada. Deixam a crise para o final do mês, quando a cerveja e os tremoços começarem, subitamente, a parecer mais caros. Queixam-se agora do árbitro francês e das decisões de Paulo Bento. Queixar-se-ão das medidas de austeridade quando já não houver futebol na tv, sagrado bode expiatório de tantas frustrações. Ainda assim, protestarão sentados, no conforto dos sofás já moldados aos glúteos preguiçosos, acabando por despir o sobretudo da indignação em época de eleições, cuspindo na democracia, moralmente derrotada.
Camões, não cabendo em si de orgulho nacional (Ter-se-á perdido o conceito, diluído no tempo?) mandou calar gregos e troianos, cuja fama e glória se anulava perante nós(?). Homero, que pobre que é a tua rica Grécia! Ainda vence no plano moral? Virgílio, que é dos valores da tua romana península? Parece que os ventos da Fortuna não sopram mais no velho continente e os heróis foram descontinuados. Ainda há quem os veja, ao longe, encobertos, de calções e chuteiras. Mas vejam como comem da divina ambrósia, olvidando pelejas e glórias! Reparem, filhos de Luso, netos de Baco! «É a Hora!»

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