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São desassossegadas as minhas horas plácidas quando percebo, por entre os ramos das cerejeiras, um interlúdio ficcional que vai rasgando velhos sonhos caleidoscópicos.
domingo, 23 de março de 2014
De um quase-pesadelo
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Do atrevimento de um soneto sobre alteridade interna
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
quinta-feira, 28 de março de 2013
Dum tardio desassossego,um tanto ou quanto febril
domingo, 10 de junho de 2012
Considerações sobre a selecção nacional e o patriotismo camoniano
terça-feira, 22 de novembro de 2011
De Cronos
Consome-nos.
Agarra-nos e leva-nos para longe
da nossa própria vida.
E é por isto que O temo.
Cronos comia os filhos
e do mesmo modo nos devora a juventude,
as amizades, as recordações e os pensamentos,
tudo o que julgamos ter de mais íntimo.
Mastiga-nos
com a saudade de calendas e idos.
Tortura-nos
com agendas e tique-taques.
Rouba-nos o sono e embriaga-nos
de ânsia de descanso.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Pessoas que Pessoa não toca

Tenho diante de mim um jovem estudante. O cabelo escuro, os olhos cerrados sob o peso das grossas sobrancelhas, a sombra de uma barba adivinhada começam a desenhar um rosto de homem. É indubitavelmente mais alto do que eu, embora pareça encolhido quando sentado na cadeira sonolenta. Boceja. Cabeça sustentada na mão que se apoia no cotovelo mole, deslizante sobre a mesa. O cérebro pensante lateja e ainda assim boceja. Falo-lhe de Pessoa e do fingimento poético, conceito que ele parece absorver de imediato. Anuncio com suspense a criação da heteronímia e o entusiasmo que esperava ver materializa-se num sorriso gozão, como quem troça de um qualquer bêbado de porta de taberna. Abrevio a teoria, que se anuncia ao rapaz como um terror de infância tardia, porque um primo lhe disse que era assustador, como o papão que ainda mora debaixo da sua cama. Por vezes, quando leio uma ou outra passagem, mais emotiva ou mais inflamada, a minha voz fica trémula, embargada, e, não querendo que nenhuma sensibilidade da minha parte interfersse com o primeiro grande juízo do estudante, ouvimos a singeleza do ‘gato que brinca na rua’ na voz possante de Villaret - e nem isso lhe provocou um esgar, o mais microscópico tremelique, a menor sensação. Como posso pedir-lhe que aprecie um trecho da ‘Ode Triunfal’? Que moral me foi concedida para que o mande reconhecer a ‘dor de pensar’? Que saberá ele sobre a “raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira”? Ele que terá quê, dezoito anos? O passado ainda não lhe é suficientemente distante para que sinta por ele especial saudade. “Não é da idade,não”, sussurra-me a memória. Na inocência dos meus dezasseis anos apreciava como a uma maçã sumarenta a leitura de Pessoa no jardim. E claro que não o entendia completamente. Ainda hoje seria arrogante da minha parte dizer que o percebo já que nem ele percebia o seu próprio ‘eu’. O que interessava era o gosto com que o fazia e, só aí gosto desenvolvido, teria vontade de querer saber os pormenores rebuscados das teorias que alguém foi inventando para a genialidade de uma pessoa que era tantas. Não és tu tantos, também, tantas vezes? Deixa-o bocejar. Não é isso que me incomoda. Tantas vezes bocejei eu nas aulas de estudos pessoanos, embalada na voz grave do respeitável lente, e sabia-me tão bem. Era um bocejar feito do mais puro deleite e de aborrecimento tinha muito pouco. Aceito que haja pessoas que Pessoa não toca, mas acredito, secretamente, que isso ainda se cura com um cházinho, pelo menos até determinada idade.



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