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quarta-feira, 21 de maio de 2014

Da cegueira de Penteu


[dizias que] não sabias
o que fazias
enquanto partias
meus tesouros
minhas porcelanas raras
minhas louças tão caras
e tu só encaras
aquilo que te trazem
à vista seca
porque por detrás das cortinas
onde estão verdades
tu não fazes
mais que assustar meninas
falar coisas mesquinhas
preparar tuas mezinhas
esquematizar atrocidades.
Vês, como uma besta,
cacos sem valor,
quando ali pus, animal,
tanto, mas tanto suor.
quando os coleccionei uma vida
por amor,
quando os ergui ao alto
com fervor.
Cego!
Não vês os pormenores
em cores e flores que ali pus,
que são faunos, centauros,
negros cavalos alados,
sátiros e Ménades
e todo o thíasos
e as mulheres de Roma,
Ísis cheia de mistérios,
os meus sonhos
e uma fénix.
Tirésias, és Penteu cego!
E grande
tão grande
é o teu ego
que precocemente
te cega.
Acabarás por ver
quando
não queres saber
nem
dar conta de nada
de mim brotar
Agave alucinada!
Que a ti,
vê já metamorfoseado,
porque tomado
por eles e mudado,
mudo, calado,
em fera transformado.
Penteu, já o não és!

sábado, 28 de fevereiro de 2009

«Apoteose do Absurdo»


Ditirambos… Ouvem-nos? A percussão ritmada, as flautas estridentes… É Fevereiro, é o festival das antestérias, a festa das flores e do vinho novo. As crianças coroam de flores as suas cabeças loiras. Façamos como elas. Usemos, sobre a túnica sem mangas e sem graça do quotidiano, as peles de animais que nos devolvem as mangas dos sonhos. Peguemos nos tirsos e nas serpentes com as nossas próprias mãos e façamos parte do thíasos, por uma só noite, acompanhando os sátiros e as ménades no seu cortejo mítico. Numa correria desenfreada, subamos às montanhas, ao som dos tamboris, tomemos o topo do Parnaso e, chegados lá, dancemos e bebamos, bebamos e deixemo-nos levar no delírio dionisíaco. Que cada um por si capture e dilacere, sem mostrar piedade, o animal selvagem que reflecte, naquele instante, todos o males que nos atormentam, e que o devore sofregamente, ao pior modo animalesco, como faríamos, se pudéssemos, aos fantasmas das nossas vidas de túnicas sem mangas Momentaneamente alienados da nossa personalidade, nunca deixemos cair a máscara, só por esta noite. Viremos a realidade do avesso, invertamos todos os papéis, sejamos quem quisermos, do modo que desejarmos, que é só uma noite.

E aqueles que desprezam ou censuram o culto libertador de Diónisos, não esqueçam nunca o triste destino de Penteu, rei de Tebas, que, como castigo por se opor a esta prática e por ter chegado a proibi-la nos seus domínios, é cruelmente devorado pela sua mãe que, possuída pelo deus das artes, do divertimento, do vinho e da vitalidade, o confunde, no espaço-tempo de um delírio momentâneo, com um animal selvagem. Rio-me de ti, Penteu, ilustre rei de Tebas, tão prisioneiro da tua túnica, da tua toga, tão fiel às mangas que não tinhas, aos sonhos que escondeste e já nem sabias onde os tinhas deixado. Se nunca quiseste, por um momento, desagrilhoar-te de tudo o que te rodeava, deixasses que os outros o fizessem, que corressem, que bebessem, que dançassem, descalços, na neve. Rir-te-ias deles com desprezo. Mas se reparasses, se olhasses melhor, verias como se divertiam, como se libertavam, como riam muito e muito alto. Rir-te-ias de novo, mas sem desprezo. Haverias de rir-te como eles. Se tivesses pensado um pouco mais, talvez tivesses rido com eles.