sábado, 26 de setembro de 2009


Ontem trajei pela última vez.
Primeiro fui procurar a velha capa que se encolhia, com medo das traças, no fundo do armário. Olhei-a de um lado e do outro, como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Revi os símbolos um a um e recordei a razão pela qual cada um deles lá estava, cuidadosamente cosido no sítio certo. Olhei para os rasgos à direita e sabia identificar a que amigo pertencia cada tirinha, em que circunstâncias pedi que mo fizesse e foi aí que me desolei ao aperceber-me de que o lado esquerdo da capa estava intacto, nem um rasgo. Depois, com cuidado, tirei a cruzeta que segurava o traje. E lá estava ele, impecável. Pareceu-me, nesse dia, o mais belo fato do mundo! Devagarinho fui “descascando” a cruzeta: primeiro a gravata, depois o casaco, o colete, a camisa e a saia. Dispus as peças sobre a cama larga da minha mãe e sorri para elas, companheiras de uma viagem que estava a chegar ao fim. Foi a primeira vez que usei aqueles collants pretos, de senhora viúva, sem dar conta das picadinhas do nylon e foi também a primeira vez que ninguém me ouviu queixar dos sapatos de salto grosso.
Era já fim da tarde e estava calor. Peguei na capa sem jeito, a fazenda grossa pesava-me nas mãos. Encontrámo-nos junto a Safo, que todos os dias nos piscava o olho quando passávamos junto a ela, na pressa de uma aula. Foram chegando os amigos de sempre e a família próxima enquanto nós, em amena conversa e sem o sabermos, nos íamos despedindo do que foi. Ao cair da noite as tesouras começaram a brilhar por entre as sombras. As mães aproximaram-se de nós e foi solene o momento em que nos cortaram as gravatas, com uma ânsia de nos libertar da meninice, com o sonho de nos ver subitamente transformadas em mulheres, com aquele sorriso de dever cumprido, com os olhos brilhantes de mãe. A partir daí foi ver-nos a nós ansiosas por rasgar o passado num brinde ao futuro, e o barulho dos rasgões no tecido sabiam a liberdade, e quem nos ouvia sentia, nos gritos histéricos e nas gargalhadas fortes, a tristeza de uma despedida e a vontade de viver novos tempos, outras histórias. Mas mais fortes que as nossas gargalhadas eram as das famílias, que se divertiram tanto ou mais que nós, que sentiram o nosso sentir, que viveram esta experiência como se fosse deles também. E foi. Afinal foram eles os maiores fãs do nosso sucesso, o ombro de carpir as mágoas, a força maior que nos fazia acreditar que era possível vencer esta etapa.
Vencemos juntas. E pensam os demais: “Vencer é um verbo demasiado forte.” Não, não é. Mais uma vez reitero a minha opinião: ser estudante de Coimbra não é (só) ser um bêbado das tascas. Levantávamo-nos cedo para ir para as aulas, sempre com um sorriso na cara, arrombávamos os orçamentos lá de casa a comprar pilhas de livros que serviam, depois, para queimarmos as pestanas até às tantas da manhã a lê-los, quando a noite não era passada em branco a fazer algum trabalho. Passámos por cima de tudo isso, sobrevivemos às directas, aos nervos dos exames, ao pânico de uma apresentação oral. Nada teria sido possível sem aqueles que, além de colegas, também são amigos, o que não é fácil de encontrar por aí nos dias que correm. Eu nunca sobreviveria a uma maratona destas, amigos, sem as vossas piadas matinais, sem as maluqueiras habituais, sem os dedos nos olhos e as simulações de vómito, sem os comentários jocosos que tecíamos sobre tudo e todos (espírito crítico), sem as noitadas juntos e, sobretudo, nada disto teria sido possível sem os vossos sorrisos, as vossas palavras de incentivo, a ajuda incondicional e a confiança para chamar à razão quem a estivesse a perder.
Nessa noite jantámos juntos e juntos seguimos para o bar de sempre, como um regresso ao ventre materno, para uma última noite assim. E digo assim porque não haverá noite como aquela, outras virão e serão igualmente ou ainda mais especiais, mas nunca como aquela. Quatro raparigas rasgadas ao balcão do bar, quatro copos de um licor azul, para sempre a cor da nossa viagem. Muitos brindes se seguiram. A nós, aos que gostam de nós, ao sucesso, à felicidade, ao futuro. Já nas graças de Diónisos, falámos, recordámos muito, as aulas, os lentes, o percurso de um e de outro, rimo-nos muito, dançámos descalças, fizemos as maluqueiras de sempre. E a noite foi animada, acabou animada.
Chegada a casa, tirei os trapos, deitei-me na cama e Orfeu abraçou-me até o sol estar a pique. No dia seguinte, guardei todo e qualquer trapinho, cuidadosamente, dentro de um saco. E não tive mágoa.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

sakura


Uma brisa inesperada sacudiu um ramo da velha cerejeira sob a qual eu saboreava os moles raios de sol das primeiras horas da manhã. Uma flor caiu de mansinho no meu regaço e fitava-me sorrateiramente do colo do meu vestido de linho. Alguém a pintou com mil tons de rosa, uma pintinha preta aqui e ali, e brilhava muito sob o sol que ainda tinha vergonha de aparecer.
Parece que foi a primeira vez que eu atentei numa flor. Escutei-lhe nos contornos e na forma o desejo de ter asas, li-lhe nas cores a vontade de voar, os seus apóstrofos verbalizavam palavras que não existem. Olhei-a de todos os lados, senti-lhe a maciez com a ponta dos dedos e peguei-lhe como quem pega numa chávena da melhor porcelana. A sua pequenez era grandeza na palma da minha mão.
Soprei a plenos pulmões e a flor abriu as asas e fugiu para além do que eu pude ver. Foi com o vento e levou-me para longe.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

ensinaram-me a dizer saudade

Tenho tido olhos de luto. Aquele olhar transparente através do qual se poderia ver uma alma, não estivesse ela vazia. Quem repara nos meus olhos com atenção não consegue parar de indagar-se e acaba por soltar a questão do costume: “Acabaste a licenciatura e estás de férias. Porque razão hás-de estar assim?”. Com alguma paciência lá respondo algo, é como uma tentativa de explicar aos outros aquilo que nunca hão-de compreender, é mostrar-lhes o Colosso de Rodes e verem um galo de Barcelos… Quando digo o que sinto, que foi o melhor ano lectivo de sempre em tantos anos de faculdade, que atingi as minhas metas e que conheci pessoas com quem criei laços muito fortes, tudo parece mínimo, a enormidade do que sinto reduz-se à pequenez das palavras ditas e perdidas no ar. Nem eu própria, que sei o que sinto e porquê, sei organizar as ideias de modo a que os outros me possam compreender mas, essencialmente, de modo a que eu possa compreender-me a mim mesma. Sempre ouvi dizer que, se um assunto é complexo e delicado, difícil de explicar, se deve começar pelo início. Volto atrás um ano na minha cabeça. Fecho os olhos e viajo no passado.
Era uma vez… Não é assim que as histórias bonitas devem começar? Então prossigamos. Era uma vez a Maria e a Francesca, duas raparigas sardas, de Sassari, primas entre si, diferentes como a noite do dia. Foi um amigo que mas apresentou num encontro no mítico Penedo da Saudade. Não pude deixar de olhar para a Maria em primeiro lugar. Os seus olhos grandes, os lábios carnudos, o cabelo perfeitamente negro, o sorriso rasgado e sincero, prenderam imediatamente a minha atenção. A Francesca tinha um rosto sereno, os olhos amendoados e o cabelo escorrido que lhe caía nos ombros.
Rapidamente se criou uma empatia e começaram as visitas a casa delas, os jantares, as noitadas de conversa útil, as palhaçadas universais. E fomos conhecendo mais e mais gente. Em casa da Maria e da Francesca moravam ainda a Arianna e duas espanholas, a Marta e a Diana. Pouco mais tarde apareceu o Pier Luigi e o Alessandro. Aos meus olhos, eles pareciam viver o erasmus como pai e filho, respectivamente, numa atmosfera de carinho e protecção. O Gigi tinha tudo aquilo que eu imaginava num italiano: bigodinho, camisas e pólos, pulseiras e colares, tinha uma vespa e via o Padrinho, pelo menos, duas vezes por semana. É de Lecce, ultra da equipa, um ‘bon vivant’, trabalha num bar paradisíaco numa praia paradisíaca. Lembro-me de como gostava de o ouvir falar, da voz colocada, das brincadeiras que fazia como locutor de rádio. E o Alessandro, que alma pura, era o nosso Peter Pan, não que não quisesse crescer, mas alguém que eu nunca vou imaginar crescido. Estava sempre pronto para mais um copo, mais sorriso, uma brincadeira, um jogo de setas. A Maurizia, uma miúda divertidíssima, com um modo de falar muito seu, o cabelo curto e laranja, sempre sempre sorridente. Já no segundo semestre, vieram o Marco e a Martina. Ele baixinho, brincalhão, olhos malandros, alinhava sempre no que quer que fosse, fazia as delícias de todos com as suas imitações perfeitas. A Martina era mais sossegada, alta e de cabelo negro que lhe batia nos ombros. Depois vieram o Maurino, o Mitch, a Aurélia, o Stefano e muitos amigos de amigos de amigos.
À tarde gostávamos de apanhar sol, tal foi o frio deste Inverno, e falávamos sobre tudos e nadas. As noites passavam-se com jantaradas e conversas amenas que muitas vezes acabavam em conversas bastante ébrias já na Sé Velha. Aprendi a fazer pasta a sério, coisas que nunca imaginei gostar, fiquei estupefacta com os dotes culinários do Gigi, delirávamos com licor de mirto, exclusivo da Sardenha, falávamos sobre tudo e mais alguma coisa, aprendemos italiano e eles português. Festejámos aniversários, exames que correram bem, notas de exames, bebíamos para animar em ocasiões de exames que tinham corrido mal. Não houve ano em que tivesse saído tantas vezes à noite e, ao mesmo tempo, também não me lembro de ter sido tão aplicada nos estudos como fui.
Queimadas as noites, e quase sem darmos conta, era chegada a hora das despedidas. Durante um mês despedi-me da boa vida que tinha levado e das grandes amizades que ficam cá dentro. A primeira “festa de despedida”, expressão que me começou a parecer um pouco ambígua, teve lugar no denominado ‘Catstelo’, uma casa enorme que, reconstruída, seria um palácio de sonho, mas na verdade era um prédio gigante e degradado onde morava cerca de meia centena de erasmus e duas senhoras portuguesas. A vida para elas não devia ser fácil, não sendo um castelo de conto de fadas, era um sítio mágico onde havia sempre festa, o que implicava sempre pasta, vinho e cerveja. A festa foi divertidíssima, nunca tinha estado numa casa tão cheia de gente, moradores e convidados eram mais de uma centena e eu era a estrangeira ali, o que nunca me deixou constrangida. Tínhamos uma relação especial, um grupo pequeno e sólido, portugueses e italianos em perfeita sintonia, e tudo se desmoronou com a partida do Gigi, deixando a cidade em lágrimas. Tudo ficou diferente a partir desse dia. A iminência das partidas apertava os nossos peitos e molhava-nos os olhos de saudade antecipada. Todas as despedidas me marcaram, cada uma de um modo diferente, ia perdendo pedaços de um pouco de vida vivida em conjunto.
Eu e a Maria não tivemos uma despedida. Fomo-nos despedindo. À medida que o tiquetaque aumentava o seu som, abraçávamo-nos e aprendíamos amizade. Quando se tornou ensurdecedor, o tiquetaque fez-nos chorar e limpávamos as lágrimas uma da outra como irmãs que tentam em vão limpar uma ferida aberta. Então ela partiu, a minha amiga, a minha irmã, companheira de um período feliz. Disse-lhe tanto e não lhe disse tudo. Na última noite corremos os bares habituais como se fosse um dia qualquer, mas os olhos da Maria não mentem e ela estava descorçoada, sem alma. No dia seguinte, na estação, faltavam-me as lágrimas nem sei porquê. Só quando a camioneta partiu se quebrou o pranto.
Continuo sem saber se foi a sorte, o destino ou somente a compatibilidade de nacionalidades que nos aproximou desta maneira. Sei apenas, e até sei muito e bem, que eles foram tão ou mais felizes aqui quanto eu fui, que os laços que criámos nunca se quebrarão, que parte de n+os foi com eles e parte deles ficou por aqui. Em cada badalada da cabra ouço a voz da Maria, o famoso ‘hiiiiii’ do Ale, os passos mansinhos da Fra, as piadas do Marco, o Gigi a repetir “Maria, prendi tu figlio”, os nossos risos no eco da madrugada. E assim, eu que sou nascida e criada em Coimbra, só este ano aprendi o verdadeiro significado de saudade, de vestir a capa negra e folhear memórias, do que escreveram os antigos nas placas do Penedo da Saudade, de ouvir a cabra e tremer a cada badalada. («um amigo a partir em cada letra»). Gosto de ter este olhar perdido nos nossos sorrisos de ontem, pousado nos nossos abraços, sossegado pelas promessas de visitas próximas.

sábado, 1 de agosto de 2009

«Não sei quantas almas tenho»


«Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.»

Fernando Pessoa

terça-feira, 30 de junho de 2009

Desassossegada como nunca



Penso, desassossego-me, choro,

questiono-me, respondo-me, sossego.

As borboletas são assim,

tocam-nos revelando um esplendor secreto

e logo partem num bater de asas.

Que levem um pouco de mim

e guardem consigo o que levarem,

como eu vou guardar

no fundo do meus olhos

o êxtase de cor

e o som do seu voo leve.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Aniversário


Faço anos. Acordo e abro a janela para ver o sol e sentir o cheiro das rosas do jardim. Corro para o espelho e desolo-me ao ver que já não sou a menina do vestido amarelo, com sapatinhos de verniz. Desassossegada, corro para a varanda e a vó velha não está sentada ao sol. Onde estará ela? Angustiada, procuro o avô pelo jardim, mas não o encontro. Que é feito de nós? As festas com a família toda, a mesa cheia de doces da avó, as notas que me punham nos bolsos à socapa, o pátio que gritava vozes de crianças, o beijo apertado do avô na minha testa, o bolo de aniversário com pintarolas e fios de ovos, receber a primeira nintendo, assistir a uma sessão de Dartacão na televisão velhinha. Para onde foi isso se era tudo tão meu?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

«Aniversário»

«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
»


Álvaro de Campos, 15-10-1929