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quarta-feira, 8 de abril de 2009

105

«Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, stóico sem dureza
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras. »
Ricardo Reis

quarta-feira, 25 de março de 2009

Como Orfeu II


Não resisto, qual Orfeu desobediente, a espreitar as brechas fugazes que o passado vai semeando, portas encostadas ao acaso que alguém se esqueceu de fechar. Antes as tivessem trancado para sempre e o pensar não doía na memória. As minhas mãos estendem-se para as fotografias velhas e os dedos ébrios tentam trazer de volta aqueles rostos baços, que tempo vai tentando apagar.

Porque olhaste para trás, Orfeu? Atrás agora é abismo e nada, e esse nada nublado e desconhecido é a base do terror da morte que só os orates, sãos dos olhos, ignoram sabiamente. Preocupamo-nos com a morte ansiosamente, desesperadamente, mesmo que não tenhamos consciência disso. Deixamos de lado os mistérios ocultos da própria morte, ou porque não queremos sequer pensar nisso, ou porque todas as teorias que tentam explicá-los acabam por nos parecer densamente ocas, consistentemente vagas, conscientemente absurdas. O que realmente nos aterroriza é a ausência física, um nunca mais tornar a ver, nunca mais ouvir, nunca mais cheirar. A mudança irreversível que faz crescer por dentro uma certeza de fim, de um inevitável nunca mais. Queria tanto poder acreditar na tentada teoria reconfortante que nos faz crer que a morte é um sono agradável, um eterno descanso. Mas recuso-me a acreditar nisto pelo simples terror de pensar num sono do qual jamais se acorda. É absurdo e aterrador. Desassossego-me. «Pequena vida consciente, sempre/ Da repetida imagem perseguida/ Do fim inevitável». (Ricardo Reis)

Foi quando os “comedores de lótus” do professor Delfim devoraram Satyricon que a consciência do fim de tudo e da visão de um imenso nada se abateu sobre a minha cabeça e foi trepando, gananciosa, a montanha dos meus medos intrínsecos. Lembro-me do meu próprio espanto perante o espanto de Encólpio e Gíton no festim de Trimalquião. O anfitrião apreciava, realmente, o requinte ostensivo, o espectáculo de si mesmo, o que o fazia cair no abismo do ridículo e do mau gosto. No entanto, os seus gestos apotropaicos, a bizarra encenação da sua própria morte, a preparação prévia de um epitáfio e uma curiosidade imensa quanto às reacções dos outros perante a sua partida não me pareceram atitudes totalmente absurdas. O que ele tinha era uma infinda e assustadora consciência da contagem decrescente do tempo de uma vida. Ao contrário de Trimalquião, eu sou avessa aos tiquetaques dos relógios, ao bater das horas porque, tal como ele, tenho plena consciência de que cada tiquetaque é um ladrão de vidas, um pulha que nos grita finitude. E como será a reacção dos que me são próximos? Que dirão de mim? Escrever-me-ão versos no epitáfio ou terei de ser eu mesma a fazê-lo? O que farão com as coisas que guardo com carinho? Que restará de mim senão memórias?

Porque continuo a olhar para trás, como Orfeu? Olharia Trimalquião para o seu passado no pouco tempo em que não se preocupava com o futuro? Eu continuo esperar, de olhos bem abertos, rasgos de outros tempos para neles me perder, propositadamente. E então, quando o passado me leva de volta por instantes, fecho muito os olhos para ver os meus mortos queridos, para que voltem a ser presente, para que nunca lhes esqueça a voz e possa sempre saber de cor os traços dos seus rostos quando sorriam. Despiram os trajes da vida e deixaram-nos por aí, ferrões aguçados no fundo da memória. A bata florida e desbotada da vó velha parecia ainda ter no bolso direito o chocolate que comprava na mercearia e que era só para mim. Quando encontrei a boina axadrezada do avô, esquecida no velho toucador, embora soubesse que tinha sido lavada, quis sentir-lhe o cheiro dos cabelos que penteava meticulosamente, depois de tirar o pente castanho do bolso traseiro das calças. A camisola vermelha que te conhecia, levaste-a contigo, e, ao vê-la vestida no teu corpo inerte, nesse último dia, fez-me temer destapar-te a face para te beijar, amigo, porque quero recordar para sempre o teu rosto menino. Estas são quase presenças vagas que parecem querer, por breves instantes, compensar as ausências abismais. São conforto em forma de lágrimas.

Guardo no fundo não sei bem de quê nem onde todas as memórias-cheiro, memórias-sorriso, memórias-palavra, memórias-segredo, para com elas me reconciliar e poder ver, com mais clareza, o meu futuro. Não quero nunca desfazer-me das minhas memórias como se faz aos livros que contam as histórias de antigamentes, quero antes levá-las (sim, levá-las, não carregá-las, mas transportá-las com leveza) comigo pela vida fora, porque a ela pertencem, e torná-las vivas em palavras-história. Os meus mortos queridos deixaram muitas histórias por/para contar. Encarregar-me-ei disso. Sem lágrimas, um dia.

domingo, 1 de março de 2009

62. «Odes e outros poemas»

«Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No báratro da mente.»

Ricardo Reis, Odes e outros poemas (nº62)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Não me falaram de Cronos




Pudesse eu ter tido esse Mestre e saberia agora apreciar a efemeridade das rosas eternas que não colhes nos jardins de Adónis. Saberia devorar as horas plácidas com tranquilo ardor, qual Cronos comedor da sua prole, e nunca teria ficado doente dos olhos.
Eu também tive o meu Mestre. Foi ele quem me ensinou a usar os olhos-girassóis de menina, que miravam com nitidez e espanto, a cada tique-taque, o grandioso espectáculo do Mundo. E mais do que isto não viam, porque não era preciso. O meu Mestre nunca esteve doente dos olhos. Ele próprio tinha olhos-girassóis em vez de olhos de adulto, e era essa meninice singela, sobretudo, que o tornava tão especial. E dele herdei mil e um olhares, maneiras de ver distintas, pontos de vista despidos de qualquer metafísica, porque nenhum de nós sabia o que isso era. O mesmo olhar deslumbrado perante uma árvore de Natal, especialmente quando o presépio, mesmo por baixo, era obra nossa. De olhos postos no céu, víamos as chuvas de estrelas e os eclipses do sol e da lua, pensando nas estrelas como estrelas apenas, e no desaparecimento do sol e da lua como algo que teria de acontecer nesse dia porque sim. E esse doce conformismo manteve os meus olhos saudáveis. Com ele aprendi a olhar as flores e a sentir-lhes apenas o cheiro, saber-lhes a cor e a forma; aprendi o milagre de plantar na terra algo que, mais tarde, daria os seus frutos, sem mais pretensões que sentir-lhes o sumo e o sabor adocicado. Jogávamos dominó só pelo prazer de, juntos, partilharmos o calor da Primavera e o cheiro das acácias, sentados nas cadeiras brancas da varanda.
Viver assim era simples. Mais tarde, o meu Mestre ensinou-me o gosto pelo trabalho e o prazer do esmero e do esforço. Perdido o bibe sujo e acanhado, fazia comigo os deveres e eu tentava imitar a sua caligrafia recta, desenhada, perfeita. Mais tarde ainda, eu já de capa negra, provou-me que a palavra desistir não existia no dicionário que era só nosso. E quando os meus girassóis cruzavam os dele, notavam não um só esgar, mas toda uma expressão embevecida que não desaparecia nunca.
Hoje já não tenho o meu Mestre e sinto-me doente dos olhos. Já não sei o que é «o leve descanso/ de estar vivendo». Logo após a sua partida, os meus girassóis murcharam e, cega de realidade, procurei respostas nas ciências, na metafísica, na teologia, e nada me trouxe o antigo descanso de ser criança. Quando passo, no jardim, pelas violetas que nasciam para ti, arregalo bem os olhos para ver apenas a púrpura da sua pequenez e, em vez disso, perco-me em memórias, imagens dispersas, vozes desconjuntas. Porque não me ensinaste, Mestre, a atrocidade com que Cronos devora o nosso tempo e arrebata os minutos que tínhamos como filhos garantidos? Talvez nem tu soubesses disso vivendo, assim, sossegado e livre de qualquer remorso. Ensina-me, outra vez, a fitar o céu azul com a vista esbugalhada de um espanto-menino, que eu esqueci-me de como se faz…

domingo, 22 de fevereiro de 2009

1

«Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.»

Ricardo Reis
12-06-1914