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quarta-feira, 3 de junho de 2009

«Aniversário»

«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
»


Álvaro de Campos, 15-10-1929

quarta-feira, 8 de abril de 2009

105

«Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, stóico sem dureza
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras. »
Ricardo Reis

sábado, 28 de março de 2009

«Milímetros»

«(sensações de coisas mínimas)

Como o presente é antiquíssimo, porque tudo, quando existiu foi presente, eu tenho para as coisas, porque pertencem ao presente, carinhos de antiquário, e fúrias de coleccionador precedido para quem me tira os meus erros sobre as coisas com plausíveis.

As várias posições que uma borboleta que voa ocupa sucessivamente no espaço são aos meus olhos maravilhados várias coisas que ficam no espaço visivelmente. As minhas reminiscências são tão vívidas que [?] .

Mas só as sensações mínimas, e de coisas pequeníssimas, é que eu vivo intensamente. Será pelo meu amor ao fútil que isto me acontece. Pode ser que seja pelo meu escrúpulo no detalhe. Mas creio mais - não o sei, estas são as coisas que eu nunca analiso. - que é porque o mínimo, por não ter absolutamente importância nenhuma social ou prática, tem, pela mera ausência disso, uma independência absoluta, de associações sujas com a realidade. O mínimo sabe-me a irreal. O inútil é belo porque é menos real que o útil, que se continua e prolonga, ao passo que o maravilhoso fútil, o glorioso infinitesimal fica onde está, não passa de ser o que é, vive liberto e independente. O inútil e o fútil abrem na nossa vida real intervalos de estética humilde. Quanto não me provoca na alma de sonhos e amorosas delícias a mera existência insignificante dum alfinete pregado numa fita! Triste de quem não sabe a importância que isso tem!

Depois, entre as sensações que mais penetrantemenete doem até serem agradáveis, o desassossego do mistério é uma das mais complexas e extensas. E o mistério nunca transparece tanto como na contemplação das pequeninas coisas, que, como se não movem, são perfeitamente translúcidas a ele, que param para o deixar passar. É mais difícil ter o sentimento do mistério contemplando uma batalha, e contudo pensar no absurdo que é haver gente, e sociedades e combates delasé o que mais pode desfraldar dentro do nosso pensamento a bandeira de conquista do mistério - do que diante da contemplação duma pequena pedra parada numa estrada, que, porque nenhuma ideia provoca além de que existe, outra ideia não pode provocar, , se continuarmos pensando, do que, imediatamente a seguir, a do seu mistério de existir.

Benditos sejam os instantes, e os milímetros, e as sombras das pequenas coisas, ainda mais humildes do que elas! Os instantes, [?]. Os milímetros - que impressão de assombro e ousadia que a sua existência lado a lado e muito aproximada numa fita métrica me causa. Às vezes sofro e gozo com estas coisas. Tenho um orgulho tosco nisso.

Sou uma placa fotográfica prolixamente impressionável. Todos os detalhes se me gravam desproporcionadamente a haver um todo. Só me ocupa de mim. O mundo exterior é-me sempre evidentemente sensação. Nunca me esqueço de que sinto.»



Livro do Desassossego,
Bernardo Soares

sexta-feira, 27 de março de 2009

Dia Mundial da Poesia

Hoje não é o Dia Mundial da Poesia. Esse dia já passou, no bom senso de todo o mundo. Mas a mim apetece-me que o Dia mundial da Poesia seja hoje. Pode ser? Aprovaria o mundo que assim fosse? E também quero comemorar a poesia amanhã, durante o fim-de-semana, o ano inteiro. O que é o Dia Mundial da Poesia, afinal? É um dia que os homens decidiram ser destinado a recitar e ouvir recitar poemas? Gosto de ouvir Villaret a dizer poemas, mas qualquer dia me parece bom para o fazer.

Poesia é todos os dias. É o que já passou, o que sucede ou o que pode vir a acontecer. Não podemos tocar a poesia nem fazê-la parar por instantes, muitos não sabem onde encontrá-la, nem eu conheço todos os seus recantos porque, ínfima, se recolhe sob qualquer pétala, qualquer pedra. No entanto, afigura-se-nos tão espampanantemente singela no abrir de um botão de rosa, no riso sincero dos garotos, na languidez das tardes quentes, na voz da mãe, nos grãos de areia que invadem os pés descalços, na caligrafia do avô, na espuma das ondas, nos olhos de um gato, nos nossos próprios olhos e, até, nas nossas próprias lágrimas.

O poeta é o artista ímpar que tem o dom de usar as palavras certas, pintor único da beleza do pormenor, que comete, por vezes, a ousadia de rimar estórias e glosar sentimentos. É o estóico e o epicurista, o realista e o utópico, o novelista e o modernista, o conservador e o experimental. Não é um fazedor de poemas, é um arquitecto de sensações lexicalizadas.

Dia mundial da poesia. E recordo Villaret a dizer Liberdade

«Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...»

terça-feira, 24 de março de 2009

40.

«Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a materializar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo que o dormir lhe não basta - certo é que sinto como se, no fim de o piorar de um doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de sobre a colcha sentida.

Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver. A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um sono. Porque o há-de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do sono é acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso, porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte de um sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência dela, ou coisa com que a comparar.»


A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não precisou de levar aquele fato único que vestira.»

Bernardo Soares,
Livro do Desassossego (fragmento 40)

terça-feira, 17 de março de 2009

(ir)realidade interior do exterior

Era aqui que eu queria chegar quando falei da adequação linguística de cada falante ao Mundo que percepciona, que é de todos e é só seu. Era isso e muito mais, esse mais já posto em palavras por Soares e, possivelmente, já pensado por outros que disto se lembraram. Era mesmo isso, e não só.

Eu não invejo a partilha de sensações com outros, porque as minhas não são as de outros, embora me conforte, de certa forma, o saber que não estou sozinha perante um qualquer espanto, um rasgo de beleza, uma tristeza infinda. Tenho para mim cada sensação como marcadamente distinta das sensações de outros perante uma mesma realidade ou um sonho idêntico. Mas se, por um instante, me parecer que a sensação que é minha está tão próxima da de outro ao ponto de quase se confundirem, sinto o cofre da minha alma devassado, como se me entrassem dentro dos pensamentos mais oblíquos e me roubassem o incalculável tesouro da individualidade sensacional. Esse instante passa num de repente, porque volto a cair na doce ilusão dos sentidos que sei serem exclusivamente meus.

Recordo a cameleira, que não consigo ignorar quando passo, e penso na verdade dos olhares que sobre ela já caíram e dos pensamentos que ela terá suscitado, muito possivelmente semelhantes aos meus. Inquieto-me. E não duvido que tenham reparado nas flores que se curvam por debaixo dela, numa servidão de flor primaveril, efémera por isso ainda mais bela, porque é assim que funciona, porque tudo o que é raro ou irremediavelmente finito tem mais valor que um diamante de data de validade vitalícia. Desassossega-me saber que o jardim que queria só meu não é invisível aos outros olhos que por ele passam, mas sossego imediatamente, de educada que fui, também, pelo meu Mestre, a esbugalhar os olhos e a absorver a paisagem que eles me mostram e, depois, reformulá-la por dentro, escutando a música leve que solta e nos segreda sonhos, cheirando-a e deixando-nos levar numa viagem olfactiva a realidades que nunca tenham, talvez, existido. Quando era miúda e o vento soprava por entre o eucaliptal, empoleirava-me no muro caiado de branco e cantava, porque o eucaliptal era uma plateia em delírio com a estrela que era eu e cada eucalipto era um indivíduo e o vento que os fazia sibilar era uma espantosa ovação no fim de cada música. É este o mistério da substituição do visível: escutar com os ouvidos e com os olhos de quem sonha o que o interior de um exterior real nos diz, individualmente. E mais do que ver e escutar, é importante que se sigam os instintos que a paisagem nos provoca, viver o sonho da irrealidade tornada verdade, nem que por breves instantes.

No Cais do Sodré viste um pagode chinês. Eu, por entre as laranjeiras do quintal, que eram naquele agora, que não sei quando foi, cerejeiras floridas, vi todo o esplendor de um fim de tarde em Kyoto: sob os ramos das cerejeiras espreitei as mulheres que apreciavam cada nanossegundo da queda de uma flor, desde o momento em que, tragicamente, se desprende da árvore, se desfaz em pétalas de uma rara leveza cor-de-rosa, até que cai no chão, desfeita, e se deixa levar pela brisa. Quase posso jurar que passou por mim uma borboleta e que deixou no ar um cheiro a chá verde e a jasmim, havia lanternas e fogo de artifício, pareceu-me ouvir, ao longe, o farfalhar sedoso dos kimonos e os estalinhos suaves dos passos que as mulheres iam deixando pela relva.

O cheiro das laranjas doces trouxe-me de volta ao jardim que já conhecia, arrancou-me do outro jardim onde nunca estive, mas sei-o.

«A DIVINA INVEJA»

«Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros, invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por intermédio da alma, unissonamente sentindo, deles.

A grande dificuldade do orgulho que para mim oferece a contemplação das paisagens, é a dolorosa circunstância de já as haver com certeza contemplado alguém com um intuito igual.

A horas diferentes, é certo, e em outros dias. Mas fazer-me notar isso seria acariciar-me e amansar-me com uma escolástica que sou superior a merecer. Sei que pouco importa a diferença, que com o mesmo espírito em olhar, outros tiveram a paisagem um modo de ver, não como, mas parecido com o meu.

Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a torná-lo irrefragavelmente meu – de alterar, mantendo-a mesmamente bela e na mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente – e assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar que espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.

Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e abandonados momentos de sonho arquitecto muito mais.

Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais – curioso e dificílimo triunfo do êxtase, tão difícil porque o agente evocativo é da mesma ordem de sensações que o que há-de evocar. O meu triunfo máximo no género foi quando, a certa hora ambígua de aspecto e luz, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos – curioso pagode chinês pintado no espaço, sobre o espaço-cetim, não sei como, sobre o espaço que perdura na abominável terceira dimensão. E a hora cheirou-me verdadeiramente a um tecido arrastado e longínquo e com uma grande inveja de realidade…»




Livro do Desassossego,

Bernardo Soares

quarta-feira, 11 de março de 2009

«Eu não escrevo em português.»

Aprende-se, estudando linguística, que o falante tem liberdade para se apropriar do léxico para criar os seus próprios enunciados e que é ele o único responsável por manter a língua como organismo vivo, em constante mutação. Só não se aprende, porque ainda ninguém conseguiu descobrir, quais são e como funcionam os mecanismos mentais activados pelo sujeito para uma proeza tão banal: falar, escrever, pôr em palavras o mundo extra-linguístico, o suposto palpável que nos rodeia.

Bernardo Soares deixou-nos o palpite. Guiemo-nos por ele durante breves instantes. Pensemos, por exemplo, na palavra “água”. Em qualquer língua que seja, toda a gente lhe conhece o significado, a definição canónica, as suas principais características e utilizações possíveis. O cérebro de cada um tem, com certeza, incontáveis informações acerca da água, mas o saber que dela universalmente partilhamos é claramente geral, assustadoramente oco. Além da definição de água que é partilhada, cada indivíduo a descreve ou pensa no seu conceito sem nunca se desligar da sua própria relação com a própria água, do prazer que é só seu de tomar um banho quente, da sofreguidão com que a bebe quando tem sede e de como fica saciado. Todos o fazem, mas cada um se apercebe do mesmo à sua própria maneira.

Os japoneses, por exemplo, têm duas palavras para “mãe”. Fazem uma distinção muito clara quando se referem à mãe de outrem e à sua própria mãe. Não terá isto toda a lógica do mundo? Se todos sabemos o que é uma “mãe”, mas se todos pensamos na nossa própria mãe como diferente de todas as outras, não deverá ela ser mais do que o vago conceito do ser que nos trouxe ao mundo? A “mãe”, como todos a imaginamos, é aquela que nos acarinha e trata de nós, que cozinha e arruma a casa, que nos beija a testa e nos vai carregando pela vida, que é mulher corajosa e “pau-para-toda-a-obra”. Mesmo assim, esta “mãe convencional”, ou “mãe desejável”, é sempre diferente da nossa, porque a mão que nos acarinha não é a mesma, porque o seu cheiro é especial, porque a boca com que nos beija é só dela e aquele beijo é exclusivamente nosso.

Esta manhã olhei pela janela e o céu estava azul e o sol já brilhava como deve em tempo de Primavera. Mas os outros já o sabiam. Reparei, mais uma vez, em como o pinhal voltou a verdejar em tão pouco tempo. Tantos outros repararam no mesmo. As grandes pintas amarelas, ao longe, no limoeiro da vizinha, chamaram-me a atenção e olhei para elas demoradamente. Outros já o fizeram. Deixei cair os olhos nas folhas escuras da cameleira, nas hortênsias que despontam, nas violetas que vão murchando, na gata malhada que passa e me olha, sorrateiramente. Nada que outros não tenham visto já. Tudo acaba por parecer banal, mas a questão é que eu não falo nem escrevo português. Eu, tal como todo o pensante-falante-que-também-escreve, mordo a linguagem e faço com que se entranhe em mim e seja parte do que sou.

Não pretendo, de forma alguma, tornar isto que escrevo numa enfadonha recensão sobre a apropriação do sistema linguístico por parte do falante. Quero só estar certa de que cada palavra tem em si uma explosão de individualidade. Escrevo na língua com que penso, que foi a que inventei para realizar em palavras mentais ou impressas aquilo que percepciono do Mundo, perante o qual sempre me espanto, ao qual vou adaptando a língua que há. O céu, pinto-o eu com o meu azul-de-céu e o sol tem a forma e o brilho que só eu lhe sei. O pinhal tem o meu próprio verde-luz que nasce ante os meus olhos. Conheço os limões de amarelo-ácido que apenas vejo no quintal da vizinha melhor do que ela. E as folhas da cameleira, só eu sei como são verdes-verdes, como os olhos da Joaninha de Garrett, porque as vi verdejar a cada manhã. Conheço a paleta de cores de cada folha de hortênsia, porque fui eu que as pintei a aguarela, e se-lhes o tacto porque lhes passei os dedos mil vezes cem mil vezes. Ninguém, melhor do que eu, sabe porque nasceram misteriosamente, diz-se, as violetas, que se escondem por debaixo das hortênsias, sei que murcham porque se sentem cansadas do seu luto-roxo. Só eu sei ler, nos olhos amarelos da gata malhada, a saudação matinal e gozona que só os gatos sabem fazer e que nos deixa preso aos lábios um sorriso de manhã de sol.

segunda-feira, 9 de março de 2009

442.

«Que de Infernos e Purgatórios e Paraísos tenho em mim – e quem me conhece um gesto discordando da vida… a mim tão calmo e plácido?

Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.»



Bernardo Soares, Livro do Desassossego (fragmento 442)

domingo, 1 de março de 2009

62. «Odes e outros poemas»

«Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No báratro da mente.»

Ricardo Reis, Odes e outros poemas (nº62)

sábado, 28 de fevereiro de 2009

«Apoteose do Absurdo»


Ditirambos… Ouvem-nos? A percussão ritmada, as flautas estridentes… É Fevereiro, é o festival das antestérias, a festa das flores e do vinho novo. As crianças coroam de flores as suas cabeças loiras. Façamos como elas. Usemos, sobre a túnica sem mangas e sem graça do quotidiano, as peles de animais que nos devolvem as mangas dos sonhos. Peguemos nos tirsos e nas serpentes com as nossas próprias mãos e façamos parte do thíasos, por uma só noite, acompanhando os sátiros e as ménades no seu cortejo mítico. Numa correria desenfreada, subamos às montanhas, ao som dos tamboris, tomemos o topo do Parnaso e, chegados lá, dancemos e bebamos, bebamos e deixemo-nos levar no delírio dionisíaco. Que cada um por si capture e dilacere, sem mostrar piedade, o animal selvagem que reflecte, naquele instante, todos o males que nos atormentam, e que o devore sofregamente, ao pior modo animalesco, como faríamos, se pudéssemos, aos fantasmas das nossas vidas de túnicas sem mangas Momentaneamente alienados da nossa personalidade, nunca deixemos cair a máscara, só por esta noite. Viremos a realidade do avesso, invertamos todos os papéis, sejamos quem quisermos, do modo que desejarmos, que é só uma noite.

E aqueles que desprezam ou censuram o culto libertador de Diónisos, não esqueçam nunca o triste destino de Penteu, rei de Tebas, que, como castigo por se opor a esta prática e por ter chegado a proibi-la nos seus domínios, é cruelmente devorado pela sua mãe que, possuída pelo deus das artes, do divertimento, do vinho e da vitalidade, o confunde, no espaço-tempo de um delírio momentâneo, com um animal selvagem. Rio-me de ti, Penteu, ilustre rei de Tebas, tão prisioneiro da tua túnica, da tua toga, tão fiel às mangas que não tinhas, aos sonhos que escondeste e já nem sabias onde os tinhas deixado. Se nunca quiseste, por um momento, desagrilhoar-te de tudo o que te rodeava, deixasses que os outros o fizessem, que corressem, que bebessem, que dançassem, descalços, na neve. Rir-te-ias deles com desprezo. Mas se reparasses, se olhasses melhor, verias como se divertiam, como se libertavam, como riam muito e muito alto. Rir-te-ias de novo, mas sem desprezo. Haverias de rir-te como eles. Se tivesses pensado um pouco mais, talvez tivesses rido com eles.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

372.


«APOTEOSE DO ABSURDO




Absurdemos a vida, de leste a oeste.»


Bernardo Soares,
Livro do Desassossego (fragmento 372)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

139.

«Há muito tempo que não escrevo. Têm passado meses sem que viva, e vou durando, entre o escritório e a fisiologia, numa estagnação íntima de pensar e de sentir. Isto, infelizmente, não repousa: no apodrecimento há fermentação.

Há muito tempo que não só não escrevo, mas nem sequer existo. Creio que mal sonho. As ruas são ruas para mim. Faço o trabalho do escritório com consciência só para ele, mas não direi bem sem me distrair: por detrás estou, em vez de meditando, dormindo, porém estou sempre outro por detrás do trabalho.

Há muito tempo que não existo. Estou sossegadíssimo. Ninguém me distingue de quem sou. Senti-me agora respirar como se tivesse praticado uma coisa nova, ou atrasada. Começo a ter consciência de ter consciência. Talvez amanhã desperte para mim mesmo, e reate o curso da minha existência própria. Não sei se, com isso, serei mais feliz ou menos. Não sei nada. Ergo a cabeça de passeante e vejo que, sobre a encosta do Castelo, o poente oposto arde em dezenas de janelas, num revérbero alto de fogo frio. À roda desses olhos de chama dura toda a encosta é suave do fim do dia. Posso ao menos sentir-me triste, e ter a consciência de que, com esta minha tristeza, se cruzou agora - visto com o ouvido - o som súbito do eléctrico que passa, a voz casual dos conversadores jovens, o sussurro esquecido da cidade viva.

Há muito tempo que não sou eu.»

Bernardo Soares,
Livro do Desassossego (fragmento 139)

Não me falaram de Cronos




Pudesse eu ter tido esse Mestre e saberia agora apreciar a efemeridade das rosas eternas que não colhes nos jardins de Adónis. Saberia devorar as horas plácidas com tranquilo ardor, qual Cronos comedor da sua prole, e nunca teria ficado doente dos olhos.
Eu também tive o meu Mestre. Foi ele quem me ensinou a usar os olhos-girassóis de menina, que miravam com nitidez e espanto, a cada tique-taque, o grandioso espectáculo do Mundo. E mais do que isto não viam, porque não era preciso. O meu Mestre nunca esteve doente dos olhos. Ele próprio tinha olhos-girassóis em vez de olhos de adulto, e era essa meninice singela, sobretudo, que o tornava tão especial. E dele herdei mil e um olhares, maneiras de ver distintas, pontos de vista despidos de qualquer metafísica, porque nenhum de nós sabia o que isso era. O mesmo olhar deslumbrado perante uma árvore de Natal, especialmente quando o presépio, mesmo por baixo, era obra nossa. De olhos postos no céu, víamos as chuvas de estrelas e os eclipses do sol e da lua, pensando nas estrelas como estrelas apenas, e no desaparecimento do sol e da lua como algo que teria de acontecer nesse dia porque sim. E esse doce conformismo manteve os meus olhos saudáveis. Com ele aprendi a olhar as flores e a sentir-lhes apenas o cheiro, saber-lhes a cor e a forma; aprendi o milagre de plantar na terra algo que, mais tarde, daria os seus frutos, sem mais pretensões que sentir-lhes o sumo e o sabor adocicado. Jogávamos dominó só pelo prazer de, juntos, partilharmos o calor da Primavera e o cheiro das acácias, sentados nas cadeiras brancas da varanda.
Viver assim era simples. Mais tarde, o meu Mestre ensinou-me o gosto pelo trabalho e o prazer do esmero e do esforço. Perdido o bibe sujo e acanhado, fazia comigo os deveres e eu tentava imitar a sua caligrafia recta, desenhada, perfeita. Mais tarde ainda, eu já de capa negra, provou-me que a palavra desistir não existia no dicionário que era só nosso. E quando os meus girassóis cruzavam os dele, notavam não um só esgar, mas toda uma expressão embevecida que não desaparecia nunca.
Hoje já não tenho o meu Mestre e sinto-me doente dos olhos. Já não sei o que é «o leve descanso/ de estar vivendo». Logo após a sua partida, os meus girassóis murcharam e, cega de realidade, procurei respostas nas ciências, na metafísica, na teologia, e nada me trouxe o antigo descanso de ser criança. Quando passo, no jardim, pelas violetas que nasciam para ti, arregalo bem os olhos para ver apenas a púrpura da sua pequenez e, em vez disso, perco-me em memórias, imagens dispersas, vozes desconjuntas. Porque não me ensinaste, Mestre, a atrocidade com que Cronos devora o nosso tempo e arrebata os minutos que tínhamos como filhos garantidos? Talvez nem tu soubesses disso vivendo, assim, sossegado e livre de qualquer remorso. Ensina-me, outra vez, a fitar o céu azul com a vista esbugalhada de um espanto-menino, que eu esqueci-me de como se faz…

domingo, 22 de fevereiro de 2009

1

«Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quasi
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.»

Ricardo Reis
12-06-1914