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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

DILUENTE


A vizinha do número quatorze ria hoje da porta

De onde há um mês saiu o enterro do filho pequeno.

Ria naturalmente com a alma na cara.

Está certo: é a vida.

A dor não dura porque a dor não dura.

Está certo.

Repito: está certo.

Mas o meu coração não está certo.

O meu coração romântico faz enigmas do egoísmo da vida.

Cá está a lição, ó alma da gente!

Se a mãe esquece o filho que saiu dela e morreu,

Quem se vai dar ao trabalho de se lembrar de mim?

Estou só no mundo, como um peão de cair.

Posso morrer como o orvalho seca.

Por uma arte natural de natureza solar,

Posso morrer à vontade da deslembrança,

Posso morrer como ninguém...

Mas isto dói,

Isto é indecente para quem tem coração...

Isto...

Sim, isto fica-me nas goelas como uma sanduíche com lágrimas...

Gloria? Amor? O anseio de uma alma humana?

Apoteose ás avessas...

Dêem-me Agua de Vidago, que eu quero esquecer a Vida!


Álvaro de Campos

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

«Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...

As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!

Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes

E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.»


Álvaro de Campos

quarta-feira, 3 de junho de 2009

«Aniversário»

«No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
»


Álvaro de Campos, 15-10-1929

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Não me falaram de Cronos




Pudesse eu ter tido esse Mestre e saberia agora apreciar a efemeridade das rosas eternas que não colhes nos jardins de Adónis. Saberia devorar as horas plácidas com tranquilo ardor, qual Cronos comedor da sua prole, e nunca teria ficado doente dos olhos.
Eu também tive o meu Mestre. Foi ele quem me ensinou a usar os olhos-girassóis de menina, que miravam com nitidez e espanto, a cada tique-taque, o grandioso espectáculo do Mundo. E mais do que isto não viam, porque não era preciso. O meu Mestre nunca esteve doente dos olhos. Ele próprio tinha olhos-girassóis em vez de olhos de adulto, e era essa meninice singela, sobretudo, que o tornava tão especial. E dele herdei mil e um olhares, maneiras de ver distintas, pontos de vista despidos de qualquer metafísica, porque nenhum de nós sabia o que isso era. O mesmo olhar deslumbrado perante uma árvore de Natal, especialmente quando o presépio, mesmo por baixo, era obra nossa. De olhos postos no céu, víamos as chuvas de estrelas e os eclipses do sol e da lua, pensando nas estrelas como estrelas apenas, e no desaparecimento do sol e da lua como algo que teria de acontecer nesse dia porque sim. E esse doce conformismo manteve os meus olhos saudáveis. Com ele aprendi a olhar as flores e a sentir-lhes apenas o cheiro, saber-lhes a cor e a forma; aprendi o milagre de plantar na terra algo que, mais tarde, daria os seus frutos, sem mais pretensões que sentir-lhes o sumo e o sabor adocicado. Jogávamos dominó só pelo prazer de, juntos, partilharmos o calor da Primavera e o cheiro das acácias, sentados nas cadeiras brancas da varanda.
Viver assim era simples. Mais tarde, o meu Mestre ensinou-me o gosto pelo trabalho e o prazer do esmero e do esforço. Perdido o bibe sujo e acanhado, fazia comigo os deveres e eu tentava imitar a sua caligrafia recta, desenhada, perfeita. Mais tarde ainda, eu já de capa negra, provou-me que a palavra desistir não existia no dicionário que era só nosso. E quando os meus girassóis cruzavam os dele, notavam não um só esgar, mas toda uma expressão embevecida que não desaparecia nunca.
Hoje já não tenho o meu Mestre e sinto-me doente dos olhos. Já não sei o que é «o leve descanso/ de estar vivendo». Logo após a sua partida, os meus girassóis murcharam e, cega de realidade, procurei respostas nas ciências, na metafísica, na teologia, e nada me trouxe o antigo descanso de ser criança. Quando passo, no jardim, pelas violetas que nasciam para ti, arregalo bem os olhos para ver apenas a púrpura da sua pequenez e, em vez disso, perco-me em memórias, imagens dispersas, vozes desconjuntas. Porque não me ensinaste, Mestre, a atrocidade com que Cronos devora o nosso tempo e arrebata os minutos que tínhamos como filhos garantidos? Talvez nem tu soubesses disso vivendo, assim, sossegado e livre de qualquer remorso. Ensina-me, outra vez, a fitar o céu azul com a vista esbugalhada de um espanto-menino, que eu esqueci-me de como se faz…