terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Como Orfeu IV


Pareceu-me ter-te ouvido. Julguei ao fundo das escadas a tua voz rouca, intermitência de ontem... Pensei que vinha da varanda de antes o riscar nunca acertado de uma BIC laranja sobre aqueles desafortunados boletins quadriculados.
Ergui, pesada, a cabeça, e estiquei o mais que pude o meu pescoço dorido, mas não havia nada do lado de fora da janela. É só Janeiro a trazer-me a febre de te ver, uma vez mais...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

«Ah as horas indecisas em que a minha vida parece de um outro...

As horas do crepúsculo no terraço dos cafés cosmopolitas!

Na hora de olhos húmidos em que se acendem as luzes

E o cansaço sabe vagamente a uma febre passada.»


Álvaro de Campos

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Ícaro a tinta preta


Manda-me calar, porque eu falo demais. E quem tem por hábito fazê-lo costuma perder-se em novelos de ideias e, com as pontas soltas, acaba por desviar a atenção para os gestos toscos de quem tenta remediar o fio frágil com um nó atarantado. Perde-se o sumo que escorre pelo meio das palavras ditas, vai pingando nas reticências e fica derramado, sem remédio, o sentido no chão. A sintaxe foge por entre a semântica descuidada enquanto o discurso toma a forma de uma melodia sem mais valor do que o ritmo que contém e o interlocutor lá vai batendo com o pé no chão, sentindo apenas a sonoridade dos vocábulos e não já aquilo que serviam para dizer. Falar muito é nada. É conhecer o lado esquerdo do dicionário e nem uma letra além disso.
Diz-me para não escutar, porque ouvir dói e desgasta a singeleza dos sentidos. Farei orelhas moucas ao que me é dito e formarei uma opinião só minha. Não me importa não mais ouvir o som poderoso do mar revolto, o canto alegre do pássaro pela manhã, a voz cândida das tuas palavras, a nona sinfonia… Porque mesmo não escutando, tenho em mim o poder de reproduzir para dentro a melodia que me aprouver. O poder da imaginação é de tal forma demolidor que posso sentir em mim o soprar do vento num jardim de Osaka, o sussurro das mãos da avó quando cuidam das orquídeas lá fora, o grito medonho do céu zangado num estrondo de trovão.
Tapa-me os olhos, porque o mundo não é uma imagem assim tão bela. Abdicaria da visão até porque me basta a memória fotográfica dos rostos e dos lugares que me são queridos. Mesmo os que não voltarei a ver estão gravados cá dentro. E os lugares longínquos em que penso, sei-os porque os sei, e isso já me basta. Se fechar os olhos vejo o monte Fuji daqui, de tão longe, e sei bem como a neve o cobre som suavidade, tornando-o ainda mais belo. Posso até perder o Norte e mesmo assim sei como seguir para Oriente.
E se pedires que perca o sentido táctil, será como perder o olfactivo ou mesmo o gustativo, porque tudo isso está ao meu alcance dentro do meu mundo sem sentidos. Porque conheço tão bem o toque suave da seda, como o doce odor do teu pescoço, como o sabor aconchegante de um chá verde. Crio, mentalmente, uma bola de neve, e ainda assim lhe sinto o frio e a consistência gelada. Basta-me imaginar com saudade o aroma forte das acácias na Primavera para que me pareça que estou mesmo perto de uma que em nada se inibe de exalar o seu olor amarelo. Sei degustar de cabeça umas belas tiras de sashimi e saber-lhes o fresco que se me desfaz na boca, com o subtil picante do wasabi.
Mas a pena, Dédalo, a caneta alada, não ma tires. Não me cortes as asas, porque sou Ícaro ajuizado. Jamais voarei demasiado perto do Sol. Mas é com asas de tinta que, por vezes, tenho de abandonar Creta para me perder na escrita, bem mais sensata do que o discurso falado, com menos reticências e mais esclarecida, com menos espaços em branco passíveis de ser preenchidos por mal-entendidos, a grandiosa ponte para o meu mundo onde tudo é claro, colorido e autêntico, onde não há cruel rei Minos que nos prenda, onde encontro as respostas às minhas perguntas, onde sei que está a estrada dos tijolos amarelos e devagarinho, passo a passo nos meus sapatos de lantejoulas vermelhas, vou andando, tijolo em tijolo, numa busca lenta de mim mesma enquanto vou colhendo guloseimas das árvores rosadas que indicam o caminho. E mais do que encontrar o feiticeiro, quero aproveitar a viagem.

Finalmente um soneto


Na mão trouxe o pomo dourado
Apareceu, qual cisne, ela Leda.
Tanta luz deixou-a assim queda,
Que o julgou Prometeu alado.


Deixou ele cair o manto em seda.
O fogo amainou por um bocado.
Ela reconheceu o rosto rosado
No intervalo de uma labareda.


E quis ela por momentos
Num devaneio de gestos lentos
Num pesadelo em tons de preto


Perfumá-lo com unguentos,
Mas quando relembrou lamentos
Exorcizou-os num soneto.

domingo, 1 de novembro de 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

nadas


Saí do bar a dançar com Diónisos e a notícia caiu em mim como uma bomba. Diónisos fugiu. Deixou-me atónita e incrédula, parada, como uma estátua, no meio da calçada velha, junto à Sé. Respirei fundo mas as lágrimas já caíam e na minha cabeça já passavam imagens à velocidade da luz, ecos de vozes que agora são de antes. As tardes passadas lá em casa, o sorriso tímido, o falar pausado, as noites de boémia. As recordações misturaram-se depois com conclusões, constatações, coisas que já faziam algum sentido, muitas dúvidas também, ninguém falava e porquê, soubemos de repente.
E agora? É lembrar aquela força inabalável e a vontade de viver plenamente até ao fim, apreciar a vida até ao último dia, saber lidar com os nadas e ainda assim sorrir. Lidar com nadas e sorrir é saber viver.

sábado, 10 de outubro de 2009

O primeiro de nós


Já toda a gente adivinhava que este ia ser o primeiro casamento do grupo. Era certo e há muito esperado. Mesmo assim não deixei de me comover no dia em que recebi o convite, no momento em que desenlacei a fita de cetim cor-de-rosa, senti o veludo branco na ponta dos dedos, e ao ler as letrinhas redondas apercebi-me de que o momento estava, finalmente, para chegar.
Depois da felicidade inicial, seguiu-se a azáfama há muito avisada: ver a lista de casamento, comprar um vestido, uns sapatos, uma malinha de cerimónia, ir escolher um fato com o namorado, decidir boleias e horários. Se tudo isto, de início, me pareceu complicado, quando pus o meu plano de caça à roupa pareceu ainda mais difícil: ter de encontrar um vestido apropriado e discreto, elegante mas descontraído, se é preto há que contrastar com outras cores, se encontro um casaco bonito os sapatos são imediatamente riscados da lista porque, conforme a lei de Murphy, não combinam. Também convém que a maquilhagem esteja perfeita: nem muito exagerada nem simples demais, adequada a uma cerimónia sem que descaracterize o meu estilo, não podem nascer borbulhas, nem herpes, nem arranhões. Passada, sem saber bem como, esta lufa-lufa, há que avisar o namorado acerca dos tons que vamos usar, precisamente para que o seu fato não destoe por completo, porque é o que diz o “grande livro das regras dos casamentos”. De tudo isto, a lista de casamento até parece a parte mais fácil e divertida de todo este processo: é só ir à loja, ver as várias hipóteses, ponderar e tomar a decisão final. Ufa!
À hora marcada, naquele domingo, vieram buscar-nos os amigos de sempre, todos janotas, cada um com o seu fato elegante, a gravata cuidadosamente escolhida. Olhei para nós. Tão bem postos. Que idade teríamos naquele momento? “Estamos crescidos, meus velhos”. Contudo, já no carro, a caminho da recepção em casa da noiva, a música alta, os risos e as confissões de sempre fizeram-me perceber que há coisas que nunca vão mudar em nós. O mesmo na recepção: sem jeito, os janotas não sabiam bem como agir nem o que dizer, ainda assim, entrámos em grande estilo, todos chiques, carregando a geleira da despedida de solteiro, que ficou (mal) escondida a um canto do jardim. O noivo veio receber-nos. Radiante, sem mostrar uma ponta de nervosismo, bem disposto como sempre e elegantemente vestido. Nunca o tinha visto elegantemente vestido. Pensei onde estariam as velhas calças de basquet, as sapatilhas e a t-shirt despreocupada. Depois de petiscarmos qualquer coisa desafiaram-me para ir ver a noiva. Subimos as escadas do jardim e chegámos no momento em que a avó da noiva lhe estava a pôr o véu. Foi de cair o queixo.
Seguimos para a cerimónia, na capela da Universidade. Nunca tinha estado tão bem vestida em frente à faculdade, pensei. À porta as piadas nervosas e o último cigarro de solteiro. Tentámos entrar de modo discreto e escolhemos um banquinho onde coubéssemos todos, mais para trás caso algo corresse mal. Claro que, ao fim de vinte minutos de missa e coro, tornou-se hilariante reparar no que cada um fazia para tentar espantar o tédio. Finalmente saímos e deram-me para a mão um saquinho com pétalas de rosa e arroz. Foi, para mim, mais do que solene vê-los sair de braço dado, sorridentes mais do que sempre, abraçá-los, desejar-lhes o melhor e não ter palavras para dizer quanto.
A caminho do copo d’água fizemos um desvio para repor os níveis de cafeína e, ao chegar à quinta, não foi agradável percebermos que tínhamos chegado antes do cortejo matrimonial. Gaffe! Uma vez sozinhos, espreitámos as instalações, conhecemos os empregados e descobrimos que estávamos na mesa “Dama e Vagabundo”, que acabou por se revelar a mais divertida da festa. Depois das fotografias e dos copos de champanhe e martini, entrámos no salão e fiquei boquiaberta com tudo, desde a estrutura da sala até aos guardanapos da mesa. Fico sempre atrapalhada numa mesa cheia de copos altos, mas não fui eu a responsável pelo derrame de uns quantos. Depois de um banquete à antiga, os noivos abriram o baile e o karaoke. Fartámo-nos de dançar e cantar, como nunca nos tinha imaginado. Pouco depois descobrimos o bar e umas mesinhas ao ar livre e tenho ideia de termos ficado por ali umas valentes horas a conversar. De vez em quando o noivo vinha sentar-se connosco e então era só recordar e rir a bandeiras despregadas.
Como bons convivas, e como tínhamos sido os primeiros a chegar, também foi de “bom tom” sermos os últimos a sair. Cansados e felizes despedimo-nos dos amigos recém-casados e rumámos cuidadosamente de volta, entre cantorias e gargalhadas. Afinal, havemos sempre de ser (mais ou menos) os mesmos.